Vitória


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Vitória

Saindo de Jötunheimr ela cavalga os ventos pela floresta coberta de neve. Sua pele é tão clara, tão clara  que fica invisível aos olhos dos mortais.

Ela atravessa o rio Irving que marca a divisa entre os mundos e entra em Midgard onde nas florestas do norte homens rudes caçam os cervos que lhes fornecem roupa e alimento.

Entre as muitas folhagens dos pinheiros enbranquecidos, os olhos de um azul pálido  da deusa Skadi apenas observam.

Ela é a senhora das caçadas, parente dos Jottün, gigantes das terras geladas.

Diferente de muitos de seus irmãos de pele escura e recobertos de deformidades, a sua beleza é selvagem como uma avalanche nas montanhas.

As curvas de seu corpo frio atraem os Deuses, mas a apenas um deles cedeu seu coração.

Ela observa quando o mais vigoroso dos caçadores, Vagnar, atira sua lança que faz um arco certeiro no ar atravessando o pescoço do surpreso cervo.

Cambaleando, o animal trota deixando uma trilha de sangue  fumegante sobre a neve.

Os caçadores seguem a trilha sabendo que em breve encontrarão sua caça morta.

Eles não riem ou se comprazem, pois sentem  que estão sendo vigiados. Depois de meia hora encontram o cervo um pouco enterrado na neve, mas para sua decepção, está rodeado por uma loba e seus filhotes.

 um deles instintivamente levanta o arco, mas a sua mão é baixada pelo mais velho dos caçadores.

Em silêncio, todos se viram e começam a dar meia volta.

a caçada recomeçará.

Satisfeita, a deusa volta a levantar vôo quando escuta o ganido da loba e retorna rapidamente em um pé de vento que chega a desconjuntar a neve.

Outro caçador, vendo ao longe que o primeiro grupo abandonou o cervo, matou a loba a flechadas e começava a puxar o animal pelas pernas, visto ser muito grande para ser carregado nas costas.

Skadi, ao ver aquilo, imediatamente se enfurece. Não é certo matar uma mãe com suas crias.

O céu escurece ante a fúria da Jottüm e o caçador se assusta largando a presa. Começa a correr pela neve, perseguido do alto pela gigante da neve.

Ela condensa a umidade do ar e forma grandes pedras de granizo que atira sobre o homem. 

Este grita e orava para os Aesir que apenas observam e não quiseram interferir no julgamento dela.

Finalmente ao passar por uma ponte de gelo, a um gesto da Skadi, a fina passagem estala e quebra lançando-o rumo ao abismo da morte.

Skadi, satisfeita em sua sede de justiça e sangue se volta para percorrer seu caminho quando dá de cara com seu marido, o Aesir Njörd.

– Não deves caçar no limite entre os mundos, minha amada.

Ela sorri de maneira enigmática.

– E quem me deterias, Ó Senhor dos Mares, senão Odin? 

Ele nota a ironia na voz da esposa que conta com mais de dezoito metros de altura.

– Fique a minha estatura para conversarmos.

Mais ordena do que pede.

Ela dá de ombros.

– Se eleve e fale comigo se quiser. Não me diminuo para macho algum.

Deus ou não, isso feriu seu orgulho masculino e o corpo de Njörd aumentou exponencialmente até alcançar a estatura de sua esposa das montanhas geladas.

– “Como ela é bela… E selvagem!” – pensa ele.

– Faça amor comigo.

Novamente uma ordem e não um pedido.

Ela desdenha.

– Me vença em corrida e serei tua. De novo.

Ela parte em uma corrente de vento fria deixando o surpreso Deus para trás.

Logo em seguida ele pega impulso e corre atrás da esposa, invisível aos olhos dos homens que sentem apenas os ventos poderosos nas encostas das montanhas.

– Os Deuses brincam conosco essa noite! – resmunga o velho caçador.

Ele descobre o rastro de um animal grande e gordo pela profundidade de suas pegadas e eles voltam a sua caçada, indiferentes ao frio nórdico.

Finalmente, no vale próximo aos fiordes onde os rios profundos e congelados cantam sua triste canção, Skadi é segura no pulso pelo marido e os dois caem no solo frio, rindo.

Logo se beijam e começam a fazer amor.

– Tu és minha pela eternidade! – avisa Njörd.

Ela o abraça enquanto o sente.

Sussura como a brisa nos ouvidos do Deus.

– Não entendestes ainda? Eu sou minha e apenas minha, se estou com tu é porque quero estar.

Ao longe, os caçadores abatem mais um cervo e veem a aurora boreal que celebra o amor da gigante do gelo e do Aesir.

Humberto Lima

(conto em homenagem ao aniversário de Victória Manuela 24/09/2019)


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