VIDA ETERNA AOS ARAUTOS DO MAL


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VIDA ETERNA AOS ARAUTOS DO MAL

            Estrondos de fúria e destruição reverberavam no hall de entrada do palácio onde cinco ondas escuras convulsionavam o ar anunciando a chegada dos distintos convidados. A matéria negra se concentrava, dando forma aos cinco corpos que vieram de muito, muito longe e chegavam ao mesmo tempo. Envoltos em escuridão e maldade, eles materializaram-se:

Donnefar Skedar, o ser de olhos amarelos e tatuagens de fogo, olhava em volta, massageando o maxilar de onde filetes de energia escura passeavam de uma presa metálica a outra, seguido por Beatriz Costa, a criatura de aparência delicada e olhos negros e frios, tal qual sua aura sobrenatural, George Au Costa, ser de fúria e fogo, olhos vermelhos chispantes, que parecia se divertir vendo a matéria negra do castelo interagir com a sua, pulando de uma mão a outra, de unhas pontudas, negras e envenenadas, Luiz Santos, o enganador demônio da conciliação, cujos olhos ninguém nunca vira antes, por detrás de óculos de lentes espelhadas a refletir o futuro de agonia a morte, e Mhorgana Alessandra, a destruidora, de rosto pintado para a guerra, capa e cabelos esvoaçantes, gargalhando diabolicamente enquanto absorvia a matéria negra residual da viagem e do hall de entrada.

A grande porta rangeu, deslizando para cima como se os convidasse a passar à câmara seguinte, onde foram recebidos pelo putrefato mordomo, que fazendo uma reverência insuficientemente respeitosa, anunciou que seu mestre os aguardava na câmara de jantar. Virou-se e seguiu em frente, deixando um rastro gosmento de indignas vísceras pelo chão e sua inebriante fragrância de carniça, que abriu de vez o apetite dos convivas recém-chegados. Postou-se ao lado da grande porta emoldurada por caveiras, esticando o braço necrosado, apontando a óbvia direção a ser seguida pelos temíveis convidados.

            O escuro era denso e até palpável, sendo apenas perturbado por um candelabro com velas de gordura humana na mesa, cuja mortiça luz amarelada fazia um jogo de sombras incertas no rosto falsamente simpático do anfitrião. Eles contornaram a mesa e sentaram-se, arrastando com falta de cuidado as cadeiras de ossos e estofado macio de pele humana. Curiosamente as perversas e os brutais sentaram-se em grupos, elas à direita do anfitrião e eles à esquerda, o que não guardava nenhum significado oculto, nem afinidades.

            Donnefar Skedar inquiriu sem demora, com um tom de voz intimidador o motivo de estarem ali, sendo seguindo por um vozerio gutural de criaturas do mal falando ao mesmo tempo. A parca luz das velas, súbito tornou-se uma labareda a rugir rumo ao teto, que não puderam ver, embora sentissem ali presenças ignóbeis e rastejantes a observa-los. Pararam de falar e o anfitrião, Carlos H. F. Gomes, envolto em uma evanescente matéria negra, como se imaterial fosse, sorriu e explicou que nada melhor do que um bom jantar para se despedirem, convidando-os a degustarem da iguaria à sua frente.

            Como que por feitiço, os pratos já estavam servidos e os cálices cheios: coração humano e sangue. A sutil expressão de satisfação no rosto duro de maldade de um ser da escuridão era algo que o anfitrião não se cansava de admirar, por isso levantou um brinde:

            — Vida eterna aos arautos do mal! — levantou o cálice, sendo correspondido por todos que, a seguir, deliciaram-se com o sangue ainda morno, batendo no tampo da mesa os cálices vazios. — Bom apetite, desgraçados! — e, vorazes, pegaram os respectivos corações e os rasgaram com os dentes, mastigando de boca aberta, entre grunhidos de prazer, enquanto os cálices eram cheios novamente com o sangue de pescoços humanos, ainda vivos, cortados ali mesmo por escravos gigantes anões.

            O pandemônio de guturais das trévicas conversas cruzadas era a trilha sonora do ensanguentado jantar e, já ébrios pelo bom sangue servido, gritavam insultos uns aos outros, mastigando de boca aberta, enquanto  sangue escorria pelos queixos, pingando na mesa. Os pratos eram repostos com corações arrancados ali mesmo pelos odiosos comensais, que enfiavam suas mãos devastadoras em peitos de inocentes subtraídos ao Paraíso; iguaria rara e deliciosa.

            Entre arrotos e frases de baixo calão, a assombrosa Beatriz quis saber onde exatamente estavam, enquanto virava o cálice na boca e o estendia para o lado a fim de ser cheio com mais sangue. Todos pararam para ouvir a resposta:

            — Odiosos desgraçados, vocês estão em minha terra natal, a 666 mundos ao sul do ignóbil Paraíso. — levantou o cálice — Um brinde a nossa despedida! — fez-se um átimo de silêncio, com os cálices a meio caminho entre as bocarras ferozes — Doravante irei em busca de novas destruições pelo escuro vazio até encontrar um mal lugar para tirar férias, entre muito caos e desespero. — e recomeçou o inferno de gritaria desmesurada de embriagados perversos.

            O anfitrião olhava com odiosa alegria para aquelas criaturas malditas refletindo sobre como suas fúrias se encontraram, unindo o pior de seus inexistentes corações em prol de um mal maior. O Apocalipse estava garantido com tal bando de inescrupulosos Artistas do Terror, sedentos de sofrimento e aniquilação total; dignos destruídores do bem, do belo e do bom.

            Após se empanturrarem e se embebedarem como bestas do fim da inocência, despediram-se do anfitrião com mais adoráveis xingamentos e ofensas, dirigindo-se ao hall de saída, até transformaram-se e átomos de maldade em forma de matéria escura, viajando cada qual para a sua adorada terra de destruição e morte.

            — Mestre, a Armagedom está com os propulsores escuros aquecidos e os armamentos de aniquilação total carregados.

            — Sentirei uma amarga saudade desses bestiais Artistas do Terror!

Por: Carlos H. F. Gomes


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Victoria Manuela

Victória Manuela nasceu na cidade mineira de Nova Lima no ano de 2005. Estudante e amante da literatura, teve a primeira participação em uma obra literária em 2017 nas Antologias Ana e Carpe Diem. Escreve contos e poesias e é leitura assídua de vários estilos literários. Sonha em ser uma escritora de sucesso e fazer faculdade de Letras. Seus hobbys são: ler, escrever e pintar.

Um comentário

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  1. oprol evorter disse:

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