Resenha – O Cortiço


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RESENHA

Livro: O Cortiço

Autor: Aluisio Azevedo

Venho por meio desta resenha dar a minha opinião sobre o livro O Cortiço: representante máximo da escola literária denominada Naturalismo; uma vertente mais radical do realismo. 

          Como o próprio nome diz, o enredo se baseia numa estalagem, entre tantas que começaram a se formar no Rio de Janeiro no final do século 19.  Como as grandes cidades começaram a crescer de forma desenfreada e descontrolada, esse tipo de moradia passou a ser comum naquela época.

            Eu me sinto até um pouco empolgado em falar de um livro que me causou grandiosa admiração e contemplação. O livro começa contando a história de João Romão, um homem mesquinho, avarento, que cobiçava uma posição social alta a todo custo, sem se importar com quem atingisse; e para isso explorava a classe do proletariado, erguendo o cortiço e instalando quanto mais pessoas pudessem, a fim de que lhe pagassem o seu aluguel. João Romão representava o capitalismo, e o povo do cortiço o pobre sem perspectiva, explorado, infeliz…

          Havia ainda o Miranda, dono de um sobrado ao lado do cortiço. Ambos ali travavam um luta diária de brigas, desgosto e dissabores. Miranda ficava aflito por ver um cortiço se erguendo em baixo de seu nariz. A briga entre os dois portugueses chegava até ser tratada de forma irônica e com muito humor.

            O livro conta com uma gama extensa de personagens. Cada um com seus problemas, suas histórias. Isso foi um ponto muito positivo, pois cada um representava os males e defeitos que acometem o ser humano em sua essência. Trata-se de um romance-tese, no qual Aluísio delineou, de forma majestosa, assuntos até então proibidos à epoca: traição, homossexualidade, cenas mais explícitas de sexo. O livro claramente é observado como uma denúncia da sociedade hipócrita da época, opondo-se aos ideais românticos de personagens cheios de virtudes e perfeitos. E perfeição era o que não havia em O Cortiço; lá eram todos desprovidos de qualidades.

               O que Aluísio nos mostra de forma clara e eloquente são todos os defeitos e pecados capitais cometidos por todo ser humano, mas de alguma forma tentamos esconder esses sentimentos, negligenciandos-os. Influenciado pelo Cientificismo de Darwin e pelo Determinismo, o homem é colocado como um ser que age mais pelo instinto do que pela razão, por isso eram comuns as ações serem descritas dando características de animais aos personagens. O meio também era uma forte influência para os atos cometidos, ou seja: se você está em um meio sujo, hostil, lamacento, cheio de intrigas, você deverá se adaptar a ele, comparando com a teoria da "Seleção Natural" de Darwin. 

           Outro ponto elucidativo é a linguagem. Ela era muito objetiva e enxuta, e com alguns termos difíceis em virtude de ser um livro antigo, mas isso não atrapalha em nada o entendimento da história.  Percebi também que no Naturalismo era bem comum a descrição dos personagens em sua forma bem realista e do ambiente. Ademais não era um "romance de personagem", mas sim um "romance de espaço", técnica pouco usada em nossa literatura, talvez eu tenho visto isso só com o Aluisio.  

           Aluísio atribuiu aos personagens de forma radical situações de Loucura, Inveja, Cobiça, Desejo sexual descontrolado, Violência, Orgulho, Presunção, Libido exacerbada, Traição, Intolerância…( eram tantos defeitos, que não consegui listar todos).

             Com relação à narrativa, o narrador é onisciente; ou seja, um observador que tem conhecimento absoluto dos fatos decorridos. Às vezes parecia um tratado científico quando eu o lia. Aluisio analisava e descrevia os personagens com muita maestria. A personagem pela qual tive mais simpatia, foi a ingênua Pombinha, única que parecia saber ler e escrever no cortiço, por isso vivia escrevendo cartas a pedido dos vizinhos, e assim conhecia resumidamente parte da vida desses moradores. Chegava certo momento que ela refletia e analisava, pelas histórias que comprovava nas cartas, que o homem macho não servia pra nada além do papel de procriar, por seus vícios e pela busca de uma mulher apenas pela sua satisfação erótica. De ingênua, como todos pensavam, ela se mostrou uma mulher inteligente e de opinião.

              Apesar de mostrar problemas arraigados até o dia de hoje no Brasil, por fim saliento que essa perspectiva do Naturalismo já não mais funcionaria, mas o livro vale a pena por sua importância histórica. Eu tenho um apreço muito especial por ele e hoje figura entre as melhores coisas que já fiz na minha vida: ter a oportunidade de conhecer a obra-prima "O Cortiço". Livro atemporal. Nem que passe 1000 mil anos, ele ainda estará lá entre os livros que chegou com uma linguagem inovadora, com uma conduta do autor intransponível para qualquer época.

Maleno Maia

Maleno é um leitor voraz e escritor por devoção; já participou de antologias de poesias e contos e possui três romances publicados. Reside em Presidente Prudente e, além de ser amante da literatura, gosta de filosofia, ciência, por isso sua formação em Química, e apreciador de música. 


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Mhorgana Alessandra
Mhorgana Alessandra é mineira, psicóloga e mestranda em Literatura. Diretora da Anima - Núcleo de Desenvolvimento Humano, ministra palestras e consultorias sobre diversos temas do comportamento humano. Casada, mãe de duas lindas meninas, é amante do heavy metal, literatura, artes marciais e atividades ligadas ao crescimento espiritual. Ganhou diversos concursos literários e vem participando como autora e organizadora de diversas Antologias. Escritora, blogueira, colunista e roteirista, transita por diferentes estilos, mas tem especial fascínio pelos gêneros de ficção, suspense, terror e horror. Seu autor preferido é Stephen King e como ele, acredita que o escritor presta atenção em como as pessoas reais se comportam e então, conta a verdade sobre o que vê, através de caminhos alternativos e acrobáticos. Idealizadora e Editora do Literanima, é também associada da ABERST e Editora da A Arte do Terror e vem desenvolvendo projetos voltados a esse mercado específico.

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