Resenha – Numa Floresta Sombria


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A floresta sempre foi um dos locais mais propícios para abrigar os horrores do mundo. A idéia de isolamento em meio aquele mar de folhas e troncos, os sons que assumem tons assustadores a medida em que a noite se aproxima e o corrompimento de um lugar supostamente tranquilo em algo completamente assustador é de meter medo em qualquer um. Em todas as culturas espalhadas pelo mundo, indo do boca a boca popular à literatura e ao cinema, podemos encontrar narrativas sobre bruxas morando em casas estranhas, lobos famintos, acampamentos assombrados por assassinos, espíritos vingativos e outras criaturas da noite, sempre espreitando no escuro da mata.
Nas páginas dessa “floresta sombria” a coisa não é diferente. Cada autor nos conduz a um recanto escuro da floresta e traz consigo algum mal à espreita. E aqui também existem terrores para todos os gostos. Mitos do folclore ganham vida, espíritos retornam do além túmulo em busca de vingança, entidades sobrenaturais tramam para devorar almas humanas e mais uma diversidade de terrores. As narrativas de “Numa floresta sombria” transitam do horror puro ao dark fantasy, chegando até a honrar as raízes sombrias dos contos de fadas, quando não existia “e viveram felizes para sempre”.


Os textos parecem ter surgido de uma experiência pessoal dos autores, que se propuseram a passar um tempo numa floresta, buscando inspiração para tecer sua história que, apesar de curtas, são eficazes no que se propõem a fazer. Se os textos aqui reunidos resultam de um real confronto com o que habita a floresta, eu pretendo permanecer a quilômetros de distância de lá, bem seguro (??) na civilização.
Contudo, mais perigosa que qualquer floresta desse livro é a famosa “Spoiler zone”, da qual eu pretendo manter distância para não provocar a ira de nenhum leitor e estragar a experiência dos corajosos que se disporem a explorar essas páginas. Abordando brevemente as narrativas que mais me cativaram apenas para dar um gostinho do que habita a floresta.
“Um lugar especial”, do autor Jorge Moreira Alexandre, carrega desde o início uma aura de sedução que me fez virar página atrás de página como se estivesse sob o encanto do tal lugar especial.  Acredito que é como às vítimas de um vampiro se sentem ao se verem impotentes diante daquilo que elas sabem ser perigoso porém não conseguem dar resistir. Se o mergulho no livro fosse real, eu não seria capaz de seguir adiante, deixando meu corpo apodrecer as sombras deste conto.

“Um lugar onde nada morre” do Francis Graciotto também me impressionou bastante. Eu me senti membro da expedição e fui levado de volta ao fascínio que senti ao assistir “Anaconda” pela primeira vez (apesar de o conto não ter nada a ver com o Filme). A fé sempre foi algo que me assustou bastante, o modo como as pessoas se agarram ao fanatismo e fazem coisas insanas em nome de suas divindades é doentio. Aqui, os perigos da fé se abrigam em matas indianas (se não me engano) e oferecem um mistério muito interessante. Até onde um homem é capaz de ir para escapar da morte? Quais as consequências disso?


Em “O lado escuro da floresta” Mhorgana Alessandra mergulha fundo no paganismo e emerge trazendo uma narrativa sobre uma bruxa digna das florestas de Blair. Aqui vemos uma verdadeira metamorfose onde o bem é corrompido pelo mal, culminando numa maldição que sobrevive por séculos. Nenhuma migalha de pão te ajudará a encontrar o caminho de volta. Ruína e perdição esperam no fim da trilha.


Espero que esta pequena abordagem sirva para atiçar o interesse de vocês e fazer com que adentrem às sombras dessa floresta diversa, fruto da mente sombria desses autores e descubra o que cada um reservou para nós, leitores.

A cada curva, atrás de cada tronco de árvore, deliciosas narrativas de gelar o sangue aguardam, prontas para abocanhá-los em suas páginas. Olhem bem por onde andam e sigam os sons dentro da noite por sua conta e risco. Nunca se sabe o que a floresta de fato abriga em suas entranhas.

Resenha por: Igor Carbadro


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