Resenha filme: O menino que descobriu o vento

“ A miséria é a maior violência que existe!” Ouvi essa frase recentemente dita por um advogado, frase essa que ele guardou consigo pois foi lhe dita por seu pai...


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“ A miséria é a maior violência que existe!” 

Ouvi essa frase recentemente dita por um advogado, frase essa que ele guardou consigo pois foi lhe dita por seu pai. E essa frase vem ecoando em minha mente desde então porque sempre tive essa mesma visão e pensamento e percebo hoje que não estou sozinho, que não estamos sozinhos. Que muitos são aqueles que pensam da mesma forma, mas fica a pergunta o que temos feito para minimizar essa violência?

Iniciei a resenha com essa frase porque esse filme é grandioso em mostrar como a miséria é uma violência sem precedentes e dela outras violências se desencadeiam como um ciclo infindável de dor, angústia e morte. 

Mas não é sobre violência que eu quero falar, até porque já tem muitas pessoas falando disso, já tem muitos filmes e séries que abordam isso. E esse filme não é um deles. O filme nos trás o poder transformador do conhecimento, a grandiosidade e importância dele. Em tempos em que em nosso país as escolas e universidades sofrem ataques daqueles que deveriam ser os primeiros a defendê-las, ver esse filme é essencial. A jornada do estudante William no coração pobre da África emociona e leva a reflexão. 

Não há escola para todos no vilarejo de William, a tradição tribal entra em choque com a “modernização” trazida pelos negociantes da indústria do Tabaco associadas aos governos que sendo “democraticamente” eleitos ou não são apenas mais do mesmo sem exceção. Os líderes tribais são os verdadeiros líderes, são eles que preocupam-se com o povo e com a terra, com o meio ambiente, mas nesse cenário a principal preocupação de todos é com a fome. 

Como podemos culpar aqueles que aceitam a derrubada das árvores em troca de dinheiro? Será que seríamos fortes em resistir a pressão? Será que faríamos diferente em uma situação que um pouco mais de dinheiro pode garantir a nossa e a sobrevivência dos nossos?

As agruras do tempo chegam e com ela a devastação do solo, intensas chuvas e inundação que sem as árvores encharcam o solo matando a plantação e logo depois o calor intenso que o resseca, tornando a terra improdutiva. Derrubar as árvores mostrou-se a pior prática possível, mas não há como voltar atrás. Destruir a natureza de forma deliberada sem análise de impactos e medidas de reparação é buscar a própria destruição. Que isso nos sirva de reflexão.

O pai de William que havida resistido a idéia de derrubada das árvores, infla o líder tribal a se posicionar sobre a crise ante a visita do presidente “eleito”. Então vemos que certas verdades inconvenientes não são toleradas por aqueles que dizem representar o povo e o velho líder é espancado por seguranças do presidente, as máscaras caem. E a “frágil democracia” mostra ser apenas um arcabouço de mentiras pelo poder. 

Tudo se agrava rapidamente, a fome chega, a família de William não consegue pagar as mensalidades da Escola, e esse é um ponto importante. Reclamamos do que hoje temos de graça, no coração pobre da África famílias que dependem exclusivamente da agricultura em solo hostil, lutam para que seus filhos possam estudar, sacrificam a comida na mesa para isso. Em nosso país de estudo básico universalizado, o que temos feito para que nossos filhos de fato estudem, podemos e devemos questionar muita coisa, as faltas de verba e os desvios delas, a melhoria das condições de trabalho dos professores e seus salários que são extremamente baixos se comparados a carreiras que nos dão pouquíssimo retorno social. Porém fica a pergunta a todos os pais estamos fazendo nossa parte? Auxiliamos nossos filhos nos estudos, apoiamos a luta das escolas e universidades? Ou somos os hipócritas de plantão que sonham com tão sonhada vaga na Universidade Federal, mas que nas redes sociais faz posts, chamando todos professores, alunos, mestrandos, doutorandos e pesquisadores de nossas Universidades de vagabundos, de usuários de drogas.

Lembrando que a maior propaganda de uma escola privada, é divulgar a lista de seus alunos aprovados nas Universidades públicas em especial as Federais. Temos um grande problema pegamos as exceções do que há de ruim para culpabilizar a todos. E as exceções do que há de melhor para cobrar meritocracia daqueles cujo acesso básico ao que deveria ser padrão é negado ou dificultado pelas estruturas desiguais de nossa sociedade. 

William inspira porque não desiste, porque enxerga além da miséria, da dor, da falta de percepção de seu pai. E em uma das cenas mais marcantes em que discute com seu pai ele lhe diz que sabe mais coisas que o pai porque aprendeu na escola. 

O pai se zanga, desacredita do filho e lhe obriga a deixar seus experimentos. Mais uma vez temos que fazer uma pausa para reflexão. Será que por sermos mais velhos sabemos mais que nossos filhos? Será que não devemos ouvi-los? Será que devemos o tempo todo impor nosso “conhecimento“ e visão de mundo?

Agora vou abordar o papel das mulheres em especial três: a bibliotecária, a irmã e a mãe de William. A bibliotecária tem papel extremamente importante pois quando William é proibido de estudar por não conseguir pagar as mensalidades ela permite que ele use a biblioteca para realizar seus estudos e o auxilia nos estudos, quando o diretor descobre e expulsa William ela enxerga o que o homem não vê a inteligência e busca do garoto para a solução de um problema de todos do vilarejo. 

Anne a irmã de William tem papel fundamental e sacrifica-se pela idéia do irmão (a cumplicidade de ambos é das coisas emocionantes nesse filme) ela para conseguir um item muito importante para construir o moinho de vento que o irmão desejava que possibilitaria gerar eletricidade que moveria uma bomba d’água permitindo o plantio mesmo em período de seca, aceita ir embora para outra cidade com o homem que gostava e abandonar sua família. Muitos podem perguntar mas se ela gostava do homem ela não se sacrificou, engano esse pensamento, ela amava a família, mesmo com todas as dificuldades, mesmo com o sofrimento esse amor era visivelmente incondicional. 

A mãe de William é a maior representação da força interior no filme, felizmente ao longo da minha vida pude conviver com mulheres assim dentro da minha família, a elas devo muitos ensinamentos. A mãe de William é questionadora em uma sociedade essencialmente patriarcal, pela observação podemos constatar que a vontade de que os filhos estudassem parte dela, ela não abandona seu marido mesmo quando ele está totalmente fragilizado, mesmo quando ele comete seus erros de análise e percepção, ela é o núcleo agregador da família, suas palavras são assertivas e fortes, ao dizer a filha que quando arrancasse o próprio braço para alimentá-la ela demonstra que sacrificaria tudo pela família. Ao ir conversar com o diretor da escola e mostrar que a desunião jogava cada vez mais o povo ao precipício.

E o filme não é fruto apenas de uma ficção ele é baseado na história real de um jovem estudante africano, cuja família ainda vive no vilarejo. Que nos sirva de inspiração em momentos que achamos não haver saída. 

Poderia discorrer nessa resenha sobre muitos outros aspectos, poderia formular outras idéias, e filosofar sobre vários temas usando este filme. Mas convido cada um a assisti-lo, convido que abram mão de suas visões de mundo, que tentem vivenciar como se fossem parte daquele cenário, daquele povo, que façam o mergulho que fiz. E que sintam, sintam, sintam…

Para que nunca se esqueçam que o conhecimento, que a educação é a maior transformação que uma sociedade pode oferecer aos seus membros, e que todo o povo deve se unir em favor de ambos. Porque por mais problemas que possam existir, um único aluno, um único professor empenhado podem fazer transformações magníficas. 


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Fábio Silva Araújo
Poeta, escritor e espartano.

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