O Desvanecer – Alba Mendes


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As pulseiras pesadas tintilavam em meus pulsos, o kajal realçava o negro de meus olhos e o aroma doce do cravo me dava um embrulho no estômago. Aquele era o dia em que estava a um passo de conseguir tudo que tanto desejei. Acendi um incenso para o deus Bhaga pedindo para que abençoasse meu noivado, o aceitando como presente dos deuses pelo o meu esforço. Escutei alguém batendo na porta e o rosto bondoso de minha mãe apareceu. O sorriso doce dela me deixou tão enjoada quanto o aroma do cravo.

Assenti para que ela entrasse e devolvi o sorriso. Minhas bochechas arderam com o esforço. Ela pegou em minhas mãos de forma carinhosa e seus olhos brilharam de emoção.

— Minha pequena, parece que foi hoje que você saiu do meu ventre — ela disse, tocando em minha face.

— Arre, maa, não precisa disso tudo — disse, tentando contornar todo aquele sentimentalismo desnecessário.

— Como não, filha? Eu te botei no mundo e agora você vai casar, e logo com quem? Lagan! Melhor marido para você não poderia existir!

Olhei para ela de soslaio com um sorriso cumplice, verdadeiro. Nisso concordava com minha mãe. Não poderia existir melhor consorte para mim. Lagan era belo com sua pele alva simbolizando sua casta, seus olhos eram nada mais que exóticos em seus tons esverdeados, e principalmente sua família era rica.

— E assim que casar vai partir para ficar na casa da família de seu marido, sentirei tanta saudade…

Os olhos dela agora pareciam duas lagoas escuras e profundas em uma tristeza do qual não entendia. O que eu mais queria era me livrar dela e da minha antiga vida, me desprender disso tudo. Entretanto, ela me olhava como se o mundo estivesse desabando. A envolvi em meus braços e pigarrei para tentar parecer abatida com nossa inevitável separação, mas o que saiu foi uma voz vazia e tão escura quanto os olhos marejados de minha mãe.

— Não se preocupe, maa. Lagan irá cuidar bem de mim, tenho certeza disso.

Ela chorou mais. Eu deveria ter previsto isso, e tive que suportar mais sentimentalismos e palavras tão doces que faria qualquer um vomitar em seus próprios pés. Antes dela finalmente sair, pintou um bindi no centro da minha testa com suas mãos trêmulas e finalmente fiquei sozinha. Revirei meus olhos assim que a porta fechou e me voltei até o espelho para admirar minha imagem. Estava impecável, assim como uma flor que acabou de desabrochar.

Ajeitei meu sári antes de descer as escadas. O vermelho da vestimenta contrastava com minha pele cor de oliva e os detalhes dourados ajudavam a realçar minha beleza. Era importante que tudo desse certo naquele dia, pois o sacerdote iria conferir se nossos horóscopos eram compatíveis. Para mim não haveria necessidade disso tudo, sabia que Lagan havia sido feito para mim e nada disso importava. Novamente olhei para minha imagem no espelho, mas dessa vez meu coração acelerou. Por milésimos de segundos poderia jurar que havia visto o reflexo da outra. Daquela maldita que quase havia lhe roubado o que era meu por direito.

Não era a primeira vez que os olhos verdes de Garima me perseguiam. Sabia o que sentia não era culpa, nunca iria me culpar por isso. Fiz o que tinha de fazer. O que sentia era medo. Um medo de que iram descobrir mais cedo ou mais tarde a verdade.

Torci o nariz para o espelho e desci as escadas em busca da minha felicidade. Meus passos eram confiantes e meu recato era dissimulado quando me vi diante de Lagan. Assenti com a cabeça para ele e fui cumprimentar meu futuro sogro e sogra.  Olhavam-me com orgulho, tal qual se faz com uma filha. Voltei meus olhos para os meus pais, minha mãe continuava com os olhos marejados e o olhar do meu pai não tinha a metade do orgulho que minha futura família me mirava. Havia desistido há muito tempo em agradá-lo.

Segui meu caminho até meus pais e fiquei ao lado deles como diz os costumes. Mirava Lagan, para sua beleza que seria compartilhada comigo em poucos dias, e me perguntei como um homem tão distinto havia conseguido ter sentimentos tão profundos por alguém tão sem graça como Garima. A expressão em seu rosto ainda não conseguia esconder toda a tristeza que se acumulavam em seus olhos claros. Seus lábios faziam um leve contorno para baixo e sua sobrancelha estava carregada, como se estivesse com todo o peso do mundo nas costas. Ele havia ficado assim desde que Garima havia sumido sem deixar rastros.

Assim que foi permitido fui para o lado de Lagan para caminharmos juntos ao longo do rio, com toda nossa família e comitiva de noivado. O rio ficava ao lado da casa dos meus pais, os raios dourados do refletiam nele o brilho das benções do nosso casamento. Ainda estava cedo, o sacerdote apenas iria ver nossos horóscopos assim que a fonte dourada do sol se esgotasse e a somente sobrasse os pequenos pontos luminosos das estrelas e lua dourada enfeitando a escuridão. Acompanhava Lagan com pequenos passos, pois o mesmo que se arrastava com lentidão. Observei como seus olhos estavam tristes mirando a paisagem.

— São os raios do sol ou as flores da relva que estão roubando a atenção do meu futuro marido? — disse, sorrindo para ele.

Ele não sorriu de volta, continuou com o seu olhar triste e ombros caídos. Ainda pensava nela. Senti uma pontada de cólera revirando meu estômago, mas dentro de mim sabia que depois que casássemos eu iria fazê-lo feliz. Iria dar filhos belos, fortes e inteligentes, e ser uma boa esposa. Algo que sabia que Garima nunca iria conseguir.

Arre, não quero lhe perturbar com meus pensamentos, Hemendra.

— Seus pensamentos não me perturbam, apenas a você. Lagan, seremos marido e esposa, podemos dividir o fardo dos seus pensamentos juntos.

Achchhaa… — ele disse, assentindo com a cabeça. — Estava pensando onde Garima poderia estar.

— Oh… isso? Creio que já devem ter a levado para um lugar bastante distante. Uma virgem vale muitas rúpias, ainda mais com os olhos que ela tinha.

O rosto de Lagan tomou tons mais desgostosos e amargurados, ainda pintados com os mesmos tons da tristeza anterior.

— Irei lhe confidenciar uma coisa, eu a procurei em todos os lugares. Colei cartazes com a família dela, fui a bordeis oferendo dinheiro em troca dela, mas ela não estava em nenhum desses lugares. Fechei meus punhos e a dor das minhas unhas cravando na palma de minha mão me fez voltar a realidade. Porém minhas mãos não doíam mais do que meu orgulho. Ele estava movendo céus e terra por Garima. Ainda não havia desistido dela. Como ele podia a amar daquela forma? Ela não tinha nada de especial. Garima não sabia dançar, não era a mulher mais inteligente que já havia visto e

muito menos era dona de uma beleza formidável. Por que ele insistia tanto em ama-la? A única coisa de especial nela eram os olhos verdes. Doía-me admitir, mas eles eram donos de uma aura sábia como de uma própria divindade.

— Não há mais o que fazer, djan — consolei com a voz doce. — Você tentou encontra-la, agora encontre a paz em si mesmo e tente se perdoar.

Coloquei minha mão rapidamente em seu ombro. Ele parecia surpreso com as palavras, seu rosto parecia mais revigorado com o dourado do fim da tarde lhe envolvendo.

Thik hai, irei tentar — ele disse, soltando um longo suspiro cansado em seguida.

Voltamos a andar calados, um ao lado do outro. Próximos e distantes, assim como o sol e a lua. Senti-me cada vez mais afastada de Lagan. Era como se ele fosse uma estrela brilhante que eu tentava alcançar com um anzol de pescador.

No final das contas ela conseguiu, toda a alma e devoção de Lagan eram para ela. Olhei calada para as águas tranquilas do rio e era como se estivesse vivendo aquele dia novamente.

***

O sol já estava começando a partir, espalhando tons alaranjados entre as nuvens, como uma pintura feita pelos próprios deuses. Estava no meu quarto quando uma das criadas pediu licença, avisando que havia uma visita. Àquela altura já sabia de quem se tratava. Desamassei minha roupa e fui descer as escadas até a sala de visitas. Não estava engada, era ela. Sabia que ela iria vim, naquele dia mais cedo havia pedido para uma das criadas levasse o meu bilhete até Garima. E ali estava ela, me encarando com seus olhos verdes.

— Irei lhe confidenciar uma coisa, eu a procurei em todos os lugares. Colei cartazes com a família dela, fui a bordeis oferendo dinheiro em troca dela, mas ela não estava em nenhum desses lugares. Fechei meus punhos e a dor das minhas unhas cravando na palma de minha mão me fez voltar a realidade. Porém minhas mãos não doíam mais do que meu orgulho. Ele estava movendo céus e terra por Garima. Ainda não havia desistido dela. Como ele podia a amar daquela forma? Ela não tinha nada de especial. Garima não sabia dançar, não era a mulher mais inteligente que já havia visto e

muito menos era dona de uma beleza formidável. Por que ele insistia tanto em ama-la? A única coisa de especial nela eram os olhos verdes. Doía-me admitir, mas eles eram donos de uma aura sábia como de uma própria divindade.

— Não há mais o que fazer, djan — consolei com a voz doce. — Você tentou encontra-la, agora encontre a paz em si mesmo e tente se perdoar.

Coloquei minha mão rapidamente em seu ombro. Ele parecia surpreso com as palavras, seu rosto parecia mais revigorado com o dourado do fim da tarde lhe envolvendo.

Thik hai, irei tentar — ele disse, soltando um longo suspiro cansado em seguida.

Voltamos a andar calados, um ao lado do outro. Próximos e distantes, assim como o sol e a lua. Senti-me cada vez mais afastada de Lagan. Era como se ele fosse uma estrela brilhante que eu tentava alcançar com um anzol de pescador.

No final das contas ela conseguiu, toda a alma e devoção de Lagan eram para ela. Olhei calada para as águas tranquilas do rio e era como se estivesse vivendo aquele dia novamente.

***

muito menos era dona de uma beleza formidável. Por que ele insistia tanto em ama-la? A única coisa de especial nela eram os olhos verdes. Doía-me admitir, mas eles eram donos de uma aura sábia como de uma própria divindade.

— Não há mais o que fazer, djan — consolei com a voz doce. — Você tentou encontra-la, agora encontre a paz em si mesmo e tente se perdoar.

Coloquei minha mão rapidamente em seu ombro. Ele parecia surpreso com as palavras, seu rosto parecia mais revigorado com o dourado do fim da tarde lhe envolvendo.

Thik hai, irei tentar — ele disse, soltando um longo suspiro cansado em seguida.

Voltamos a andar calados, um ao lado do outro. Próximos e distantes, assim como o sol e a lua. Senti-me cada vez mais afastada de Lagan. Era como se ele fosse uma estrela brilhante que eu tentava alcançar com um anzol de pescador.

No final das contas ela conseguiu, toda a alma e devoção de Lagan eram para ela. Olhei calada para as águas tranquilas do rio e era como se estivesse vivendo aquele dia novamente.

***

Desci as escadas sem pressa e com graciosidade, desejando internamente que ela prestasse atenção em meus passos tão leves quanto as nuvens, em uma delicadeza que ela nunca iria conseguir ter. Esperei uma pontada de inveja no olhar, mas o que vi foram duas lagoas plácidas. Ela não sentia nada, mesmo me vendo com minha melhor roupa e todo o meu ouro e prata. Ressenti por um breve momento, mas continuei.

— Namastê, Hemendra. Recebi seu bilhete, parecia urgente.

Sorri para ela e minhas bochechas arderam com o esforço. Juntei minhas mãos e me inclinei cumprimentando-a. Em seguida segurei suas mãos e falei olhando em seus olhos.

— Que bom que veio minha querida dost, já estava quase enlouquecendo aqui nessa casa sozinha.

Garima olhou ao redor, vendo a sala grande e intacta. As almofadas coloridas, as cortinas pesadas e o tapete bem trabalhado.

— Seus pais viajaram novamente?

— Isso mesmo, já lhe contei como me sinto sozinha desde que meu dadi faleceu.

Achchhaa, imagino como você se sente — ela disse, assentindo com a cabeça.

— Já que você está aqui, pode me falar em detalhes os preparativos do casamento. Com suas palavras posso preencher meus ouvidos e me afastar da solidão que é essa casa vazia. Quer um chai?

Garima me fitou atenta antes de responder.

— Sim, por favor.

— Me espere ao lado do rio, irei preparar um chai para nós.

Ela olhou para direção da cozinha.

— Não é melhor que uma das criadas faça isso? Assim ganhamos mais tempo conversando.

— Faço questão de prepara-lo, fazer o chai me ajuda a esquecer dos meus problemas.

— Irei te ajudar então — ela disse, já se dirigindo até a cozinha.

Um filete fino e cortante de ira passou atravessando do meu estômago até meu peito. Como ela conseguia estragar tudo tão facilmente? Aquela era minha única oportunidade, não poderia deixar escapar. Montei meu melhor sorriso.

— Não precisa, Garima. Você é visitante, por favor, me espere perto do rio.

Ela pareceu resistir, mas no final assentiu com a cabeça e partiu. Assim que ela virou as costas revirei os olhos e minhas narinas levantaram. Apressei-me até a cozinha, expulsei a criada que ainda estava ocupada em seus afazeres e separei todo o material que precisava. Faltava apenas um.

Meu coração ainda estava com o filete cortado pela raiva que sentia de Garima. Peguei uma faca e fui até a porta que dava acesso ao jardim, e com ela colhi com facilidade várias flores de datura. Guardei a lâmina nas minhas vestes e retornei para cozinha. Preparei dois chai. Um deles tinha o ingrediente especial, que deixaria quem o bebesse entorpecida.

Andei até o rio com uma bandeja e os dois copos, um azul e outro vermelho. Depositei a bandeja no chão e logo cuidei de servir o copo azul para Garima, tomei o vermelho para mim.

— Agora podemos conversar tranquilas com um copo de chai e o barulho do rio para nos acompanhar — disse sorrindo, com os olhos fixos no copo dela.

Shukriya — ela disse em agradecimento, com o copo na mão.

Forcei sorrisos, escutei todas as palavras dela sobre o casamento que deveria ser o meu e tomei o meu chai. Entretanto todo momento que Garima ia colocar o seu na boca, lembrava-se de alguma coisa e retomava a falar. Ela não precisava toma-lo todo, precisava apenas que ela bebesse um mísero gole, mas nem isso essa maldita o fez. O chai esfriou, e meu ódio por ela cresceu.

— Garima, que tal andarmos um pouco, vai ajudar a aliviar o peso da espera pelo o casamento — disse me levantando, derrubando o meu copo vazio que descansava ao meu lado, sem consegui forçar o sorriso.

Chalo

O copo intacto dela estava no chão, olhei para ele enquanto Garima se levantava.

— Não vai querer? Por acaso, quer outra coisa para beber? Posso pegar antes de irmos.

— Não precisa, irei beber o chai.

Meus olhos brilharam com as palavras dela e observei com deleite ela se abaixar para pegar o copo. Porém minha satisfação logo se transformou em frustação, no momento que Garima iria pegar o copo, esbarrou a mão e o líquido escorreu pela relva. Tive que me controlar para não puxar os cabelos imundos dela e fazer comer a grama que ela havia derrubado o líquido.

— Quer outro? — perguntei trincando os dentes e forçando um sorriso petrificado.

— Não precisa, vamos aproveitar enquanto ainda tem luz. Desculpa pelo chai.

Abanei a mão como se dissesse que não era nada, mas no fundo do meu coração era tudo. Essa maldita me fez perder a única oportunidade que tinha e a fera dentro de mim rugia sedenta por rasga-la.

Já não restava tanto do sol, no céu estava pintando em uma palheta multicolorida em seus tons rósea, violeta e alaranjado. Nossos passos estavam sincronizados e meus pensamentos ainda estavam no líquido que fora desperdiçado, a essência das flores de datura que não mais faria mal a ela. Estava perdida em meus pensamentos quando Garima falou.

— Parece distante, Hemendra. O que há?

— Nada, ando às vezes com a cabeça nas nuvens… Lembrei-me que você ainda não comentou o que o sacerdote disse sobre o horoscopo de vocês. É um casamento auspicioso? — perguntei, com uma esperança dentro de mim que pelo menos nisso não daria certo para ela.

Garima me olhou de soslaio antes de começar a falar.

Achchhaa, como quiser. Ele nos disse que era muito auspicioso, que havíamos sido feitos um para o outro. Porém ele nos alertou de um obstáculo antes do casamento ocorrer, um que teria que ser superado por mim.

Fiquei calada, entendendo o rumo da conversa. Eu não era o obstáculo de ninguém, ela que era o meu obstáculo. Se o deus Ganesha fosse justo tiraria ela do meu caminho e não o oposto. Garima olhou para o horizonte com resquícios do final do dia, continuou a falar.

— Hemendra, eu sei que você também gosta dele. Vejo isso em seus olhos.

Meus dentes doíam e meus lábios eram uma linha fina, minhas narinas se levantavam e minha cabeça latejava. Todo o meu ódio por ela havia se tornado um vulcão dentro de mim, não consegui mais controlar as minhas lágrimas. Senti as águas salgadas desenharem na curva do meu rosto, o manchando de kajal. Tentei manter o controle, mas minha voz saiu tremula.

— Ele era para ser o meu noivo… o meu noivo! — falei mais alto do que pretendia. — Antes de você aparecer em nossas vidas, meu baldi estava preparando tudo para que casássemos e finalmente ele teria o orgulho de mim. Mas então você apareceu e enfeitiçou Lagan!

Garima me fitava com aqueles malditos olhos verdes e sábios, olhos de alguém que parecia ter pelo menos vivido mil vezes.

— Ninguém manda no amor, Hemendra. Você deveria agradecer as coisas boas ao seu redor e parar de pensar no que você não pode alcançar. Pensar dessa forma vai apenas lhe trazer desgraça.

As palavras dela somente alimentavam a fera que se contorcia dentro de mim, a fitei com ódio e cuspi as palavras.

— Você não entende e nunca vai entender. Lagan era tudo para mim. Com ele ao meu lado finalmente teria o respeito de meu baldi, mas depois disso tudo meu baldi nem mais quis olhar em meus olhos. Ele nunca me quis, queria um homem para cuidar de suas riquezas. Por que acha que ele colocou nome de homem em mim?

Garima apenas continuava a me olhar e negou com a cabeça. Eu detestava toda aquela calma e aura de superioridade dela.

— O médico disse que minha maa nunca mais poderia ter outra criança, ele apenas me suportou todo esse tempo por ela. Ele poderia ter a devolvido, mas a amava muito para fazer isso. Colocou um nome de menino em mim e sempre exigiu o melhor, mas nunca ficou satisfeito. Agora você entende?

Achchhaa, mas isso não vai me fazer desistir de Lagan. Não estou com ele da forma que você o quer, eu realmente o amo.

Como ela ousava dizer isso? Ela reduziu o meu amor por Lagan ao pó que os pé das pessoas passam por cima, desdenhou meus sentimentos como se os dela valessem mais que os meus. A fera que estava dentro de mim rugiu alto. Minha cabeça latejou com força. Minha mão encontrou o punho da faca que havia usado para colher as flores de datura. Era como se a própria deusa Kali estivesse dentro do meu ser. O sol já havia partido, a lua cheia era a única testemunha do sangue que cobriu a relva e do meu crime.

*** Nada estava acontecendo como em meus devaneios. Às vezes imaginamos que algo maravilhoso irá acontecer quando finalmente conseguíssemos o que queríamos, mas não era isso que eu estava testemunhando. Lagan ainda estava tão distante quanto o sol, puro e

As palavras dela somente alimentavam a fera que se contorcia dentro de mim, a fitei com ódio e cuspi as palavras.

— Você não entende e nunca vai entender. Lagan era tudo para mim. Com ele ao meu lado finalmente teria o respeito de meu baldi, mas depois disso tudo meu baldi nem mais quis olhar em meus olhos. Ele nunca me quis, queria um homem para cuidar de suas riquezas. Por que acha que ele colocou nome de homem em mim?

Garima apenas continuava a me olhar e negou com a cabeça. Eu detestava toda aquela calma e aura de superioridade dela.

— O médico disse que minha maa nunca mais poderia ter outra criança, ele apenas me suportou todo esse tempo por ela. Ele poderia ter a devolvido, mas a amava muito para fazer isso. Colocou um nome de menino em mim e sempre exigiu o melhor, mas nunca ficou satisfeito. Agora você entende?

Achchhaa, mas isso não vai me fazer desistir de Lagan. Não estou com ele da forma que você o quer, eu realmente o amo.

Como ela ousava dizer isso? Ela reduziu o meu amor por Lagan ao pó que os pé das pessoas passam por cima, desdenhou meus sentimentos como se os dela valessem mais que os meus. A fera que estava dentro de mim rugiu alto. Minha cabeça latejou com força. Minha mão encontrou o punho da faca que havia usado para colher as flores de datura. Era como se a própria deusa Kali estivesse dentro do meu ser. O sol já havia partido, a lua cheia era a única testemunha do sangue que cobriu a relva e do meu crime.

Nada estava acontecendo como em meus devaneios. Às vezes imaginamos que algo maravilhoso irá acontecer quando finalmente conseguíssemos o que queríamos, mas não era isso que eu estava testemunhando. Lagan ainda estava tão distante quanto o sol, puro e

brilhante. Meu pai não tinha nenhuma sombra de orgulho em sua face ou palavras. Senti-me vazia, assim como um rio que seca e apenas fica o lodo e a lama, esvaindo a vida e restando somente a sujeira.  

Me doía aceitar que não era a sombra de Garima que me assombrava, mas a luz dela. Uma luz tão forte que sobreponha toda a escuridão que havia dentro de mim. Persistindo até mesmo depois de sua morte, me rasgando de dentro para fora.

Olhei de soslaio para Lagan, mesmo com minhas palavras ele permanecia triste. Ousei tocar em sua mão e agarra-la, assim como um naufrago em um pedaço de madeira. Precisava do amor dele para não me afogar na minha escuridão. Precisava dele para superar todo o amor que não tive do meu pai. Precisava dele como um consolo por ter feito o que fiz para ter ele. 

Lagan envolveu a minha com timidez, cheguei a pensar que finalmente ele iria esquecê-la, porém ele logo soltou. Um grito estridente veio de trás, olhei e vi uma das criadas ajoelhada na beira do rio. Tentei impedir que Lagan fosse até a mulher histérica, mas ele se desvencilhou.

Um grupo de pessoas já estava amontoado ao redor da cena e não consegui ver a expressão do rosto delas, mas conseguia escutar as palavras de lamúria. Vi o momento que Lagan se aproximou e soltou um urro do mais profundo lamento. Ele estava inclinado e com o rosto brilhante pelas as águas do seu sofrimento.

Caminhei devagar onde todos estavam. Uma mão invisível apertou minha garganta e mal pude conseguir respirar.

Assim como uma flor de lótus que nasce em meio a escuridão, lá estava ela. O corpo inchado, seu rosto contorcido e as marcas da faca em seu coração abertas. Os olhos verdes que antes eram um poço de sabedoria, eram agora de um branco mórbido e acusatório.

Aquela maldita veio das profundezas do rio, onde eu a deixei, para me enfrentar. Ela era a única que sabia a verdade, e lá estava ela impedindo o meu noivado e a minha felicidade.

Gritei, porém não foi de lamento ou horror como de todos ao meu redor, e sim de fúria. A fera indomável apareceu dentro de mim novamente, como um tigre rosnando para seu inimigo. Afastei Lagan do corpo dela com força, o empurrando para longe. Ela não iria rouba-lo novamente. Entrei nas águas mornas do rio puxando o corpo inchado e esbranquiçado comigo. Queria afunda-la para nunca mais voltar, ela precisava sumir da minha vida.

Puxei o corpo de Garima para o meio do rio, bati em seu peito maldito tentando afunda-la, mas o corpo dela apenas boiava e navegava pela correnteza me levando junto. O braço gélido dela bateu em rosto e meu jhanjar de prata se enroscou em alguma coisa. A correnteza levou o corpo de Garima para longe e enquanto me puxava para baixo. Tentei tirar a joia que ostentei com orgulho há momentos atrás, mas a água do rio me puxava cada vez mais para baixo.

Certa vez, quando o deus Shiva andava com sua esposa Parvati, um demônio apareceu exigindo que ela se tornasse sua esposa. Shiva fez aparecer um demônio maior e mais forte, e assim o demônio que ousou o desafiar se curvou diante dele. Então Shiva disse “que o mau se consuma a si mesmo” e o demônio que ele criou comeu a si mesmo e sumiu. O mau que havia dentro de mim engoliu a si mesmo quando tentei afundar o corpo sem vida de Garima, a correnteza me afundou cada vez mais e não consegui retornar. As águas negras desaguavam dentro de mim. Tudo se tornou escuridão. E o mau que habitava em mim desvaneceu-se.

Por: Alba Mendes


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Victoria Manuela

Victória Manuela nasceu na cidade mineira de Nova Lima no ano de 2005. Estudante e amante da literatura, teve a primeira participação em uma obra literária em 2017 nas Antologias Ana e Carpe Diem. Escreve contos e poesias e é leitura assídua de vários estilos literários. Sonha em ser uma escritora de sucesso e fazer faculdade de Letras. Seus hobbys são: ler, escrever e pintar.

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