MOTO PÉRPETUO


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MOTO PERPÉTUO

Corre alto o ano de 1955 e Blanche limpa com muito carinho e cuidado o palacete de seu patrão, Doutor Eloy na região de Lorena, no leste da França. Não é a única criada da casa, porém é uma das mais queridas pelo patrão e outros empregados.

Teve que aprender a ser muito respeitosa, pois como órfã, lhe foi oferecido estudo que ela desperdiçou, passando boa parte de sua juventude nas regiões boemias de Paris e agora, uma adulta, não tem outra opção senão ser empregada na casa de pessoas ricas.

De cabelos dourados como o sol, a “pequena Blanchete”, como se referem a ela por seu tamanho mignon, é de um capricho sem fim. Limpa, passa, cozinha, tudo isso com muito esmero. A única coisa que lhe é proibido até tocar, se trata de um antigo relógio LeColtre, que segundo diz seu patrão, é um objeto de delicadeza sem fim, um tal moto perpétuo que ela não compreendeu muito bem. Segundo ele, o relógio dá corda sozinho.

O Doutor Eloy tem um filho único chamado Aaron, eternamente preso a uma cadeira de rodas. É um rapaz jovem e seria até bonito, não estivesse debilitado pela passagem do tempo. O Jovem não fala e  não anda, fica o dia inteiro olhando de maneira etérea pela janela do casarão e a garota tem quase certeza de que às vezes é observada pelo rapaz entrevado na cadeira de rodas, mas sempre que ela fixa o olhar parece que o filho do Doutor Eloy apenas olha para fora da janela.

Certa tarde, muito cansada, Blanche acaba por descuido espanando o relógio LeColtre que dá corda automaticamente e esse, imediatamente para de funcionar. Ao perceber o que fez, a garota, horrorizada corre para trás da escrivaninha, começando a fuçar nas engrenagens.

Saindo de seu estado sempre plácido, o rapaz de aparência desmazelada sentado na cadeira de rodas na janela se vira lentamente para a empregada e fala com uma voz áspera de quem perdeu o costume de falar:

– Não toque nesse relógio… Ele é amaldiçoado!

Blanchete se assusta ligeiramente com a súbita mudança no rapaz, mas acaba respondendo, tal seu grau de desespero:

– Eu só queria que ele funcionasse!

Para alívio dela, o ponteiro do relógio se move com um “clique”. Ela suspira e o rapaz arregala os olhos de maneira quase cômica e ordena, quase gritando.

– Tire suas mãos dele! Ele é amaldiçoado e vai realizar o que falar!

Ela começa a retirar a mão do LeCoutre mas ainda tinha um dedo sobre ele quando disse:

– Eu só queria ter estudado… Teria uma vida melhor…

Algo estranho acontece então, a loira escuta outro clique e a realidade parece se dissolver ao seu redor. Momentos depois, Blanche está suspirando na porta do colégio em que estudou toda a década de 30, sente ímpetos de fugir dali e correr pelo centro de Paris com seus amigos, cantando canções obscenas e bebendo vinho.

Tanta coisa para se ver e ela presa ali.

Odeia esse lugar, mas subitamente se sente inspirada a não parar os estudos. Quer uma vida melhor.

Estudou, se formou e virou uma ótima contadora, pois tem jeito com números.

Sente tristeza e pena quando pensa em seu pai.

Ele havia enterrado um anel de ouro que pertencera a mãe e se esqueceu de onde, passou seus últimos anos cavando todo o terreno em volta de sua casa na zona rural da França, pois pretendia deixar para ela como presente de formatura.

Terminou louco.

Ela era muito pequena quando o pai enterrou a peça valiosa, então também não se lembra o lugar, de maneira que o anel estava perdido. Após a morte de seu pai, virou órfã e foi obrigada a frequentar aquela escola medonha para moças. E até hoje não sabe como terminou o curso regular, por muitas e muitas vezes quis fugir da escola e sair para beber, mas nunca o fez.

Tempos depois, em uma festa nos Champs Eliseés, conheceu o Doutor Eloy, um lindo e triste homem, com seus primeiros fios grisalhos e uma comovente história: sua primeira esposa se matou e o filho, com quem mora em um enorme casarão no Leste da França,  enlouqueceu.

Os dois se apaixonaram imediatamente e meses depois, se casaram. Com seu coração de ouro, Blanche adotou o rapaz, chamado Aaron como um filho, cuidando muito bem dele.

Ela tem aceso a toda a casa e trata os empregados como família, cuidado de todos eles, o único alerta de seu marido foi:

– Nunca toque no LeColtre, pois é um relógio de pressão que se dá corda sozinho. Um moto perpétuo e qualquer toque, por mais suave que seja pode danifica-lo.

Mas em certa tarde de verão, lendo um romance histórico, Blanche acaba esbarrando no relógio que para de funcionar imediatamente, desesperada por não querer decepcionar o marido, ela mexe nos mecanismos.

A mulher acorda do que lhe pareceu um sonho, ainda com as mãos na engrenagem do equipamento, suas roupas, as mãos cheias de calos e seus cabelos, sempre ásperos e sujos, haviam mudado.

Assustada, Blanche retira as mãos do relógio LeColtre.

O rapaz na cadeira de rodas se vira lentamente para a mulher atônita.

– E então? Qual foi a sua desgraça?

O filho inválido do seu marido, o Doutor Eloy falou pela primeira vez desde que ela se casou com ele a mais de dez anos antes, assustando-a. Ela se lembra subitamente que teve outra vida, uma vida de dor e luta e que tudo mudou ao escolher estudar.

– De-Desgraça? Não. Não houve nenhuma desgraça! Eu pude escolher… Eu pude mudar…

Ele lentamente se virou de volta para a janela.

– Entendo… Eu escolhi ver tudo que existe desde o início até o fim… Estou vivo desde o princípio de tudo… Eu só quero morrer… Isso me foi negado… Me é negado… Vou ver tudo até o fim… Até o fim…

E finalmente Blanche compreendeu: de alguma maneira, aquele relógio faz com que voltemos ao ponto que escolhemos e temos a chance de alterar tudo.

Para alguns, uma benção, para outros, uma maldição.

Tudo depende da sua escolha.

Ela se lembra do pai.

Do sofrimento de seu progenitor atrás do anel, o rapaz a olha com certa esperança de que Blanche possa alterar sua situação e ela faz o pedido.

Se você pudesse escolher, o que escolheria?

Por: Humberto Lima


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Victoria Manuela

Victória Manuela nasceu na cidade mineira de Nova Lima no ano de 2005. Estudante e amante da literatura, teve a primeira participação em uma obra literária em 2017 nas Antologias Ana e Carpe Diem. Escreve contos e poesias e é leitura assídua de vários estilos literários. Sonha em ser uma escritora de sucesso e fazer faculdade de Letras. Seus hobbys são: ler, escrever e pintar.

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