Medo do escuro – Renato Dutra


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Anelise não sabia onde estava. Sabia apenas que precisava correr. Sua vida dependia disso. Então ela corria, mas suas pernas estavam pesadas e seus passos não a levavam para longe daquilo que se aproximava. A rua estava vazia. Os postes, um a um, se apagavam, deixando a escuridão tomar conta de tudo. Vez ou outra, um raio iluminava a o céu atrás dela que nem sequer ousava olhar para trás. Sabia que, assim que a última luz sumisse, seus piores medos se tornariam realidade. Ao longe, ouvia batidas altas e…

O despertador veio, mais uma vez, salvá-la. Todas as noites ela sofria com aquele pesadelo. Apenas pequenas variações entre um e outro, mas, sempre a escuridão trazia aquilo de volta.

Levantou-se, agradecida por ter sido acordada, e foi para a cozinha sem apagar a luz do quarto. Ela nunca apagava a lâmpada de seu quarto, tampouco qualquer outra. Em sua casa, todas as luzes eram constantemente acesas e mesmo que alguém quisesse apagar alguma seria impossível. Na casa dela, os interruptores eram apenas parte da decoração e, independentemente da posição que eles estivessem, a claridade imperava. Além disso, cada cômodo tinha mais de uma lâmpada e vários spots de luz instalados para que nenhum canto ficasse no escuro. Tudo isso para evitar outro surto causado por sua fobia.

Anelise não chegava a ser querida onde trabalhava. Era difícil gostar de alguém que nunca olhava nenhuma pessoa nos olhos e que se recusava a ter qualquer contato físico com os demais. Uma tentativa de aperto de mão a fazia correr. Porém, ela era respeitada por ser a melhor naquilo que fazia. Ninguém era melhor que ela com computadores. Ela se dava melhor com as máquinas que com os humanos, uma característica trazida por seu autismo.

Ela era muito dedicada ao trabalho. Mas, acontecesse o que acontecesse, arrumava milimetricamente sua bancada às três da tarde e se encaminhava para o ponto de ônibus. Nunca se atrasava e chegava em casa bem antes do pôr do sol. Todavia, naquele dia ela adiantou seu ritual de volta em quase três horas. Todos já sabiam que quando isso acontecia era sinal de que ela passaria no psiquiatra.

Não tinha ninguém que a conhecesse que não soubesse que ela era uma mulher diferente, bem diferente.

— Anelise, seus pesadelos ainda a estão incomodando? Ela não estava disposta a falar sobre aquilo, nem reviver tal angustia de forma consciente. Então começou a esfregar as unhas nas coxas e a balançar seu corpo para frente e para trás.

— Tome isso aqui duas horas antes de deitar e você dormirá melhor

— Ronaldo, o psiquiatra, empurrou a receita na mesa. Ele sabia que ela ainda estava tendo aquele pesadelo por causa da reação dela. Ao longo do tempo, ele foi entendendo como sua paciente funcio – nava e sabia que era o mais próximo que ela tinha de um amigo. Anelise pegou a receita, tentou ler. Aproximou-a dos olhos, aper – tou-os e não conseguiu enxergar o que estava escrito. Isso fez com que a dor de cabeça, ultimamente constante, se tornasse ainda maior.

—Você não está enxergando? — ela não conseguiu esconder uma careta — Você está com dor de cabeça? É melhor você passar em um oftalmo — ele apertou o interfone em sua mesa — Dona Ânge – la, ligue para o dr. Rubens e marque uma consulta para a senhora Anelise — ela tentou gaguejar alguma coisa, mas antes que con – seguisse, ele continuou — Às duas da tarde — e olhando para sua paciente, que desviou o olhar — bem antes do pôr do sol. Anelise retornou para casa levando o endereço da clínica onde teria uma consulta em poucos dias. Ela não queria ir. Não gostava de es – tar com ninguém, mas acabou aceitando; as dores de cabeça esta – vam terríveis. Além disso, ela sabia que o dr. Ronaldo estava certo e se preocupava realmente com ela. Se ela tivesse amigos, certamen – te, ele seria um dos melhores.

Ela foi à consulta e fez uma infinidade de exames, muito mais que os exames normais em uma simples consulta oftalmológica.

— Senhora Anelise, precisamos fazer mais alguns exames, mas, de acordo com minha experiência, é muito provável que a senhora esteja com um problema que pode causar a perda da sua visão. Anelise nem sequer esperou para ouvir o que o médico tinha a dizer e saiu correndo do consultório. Ela estava desesperada. Cega. Ela ficaria cega — pensava. Correu, chorou e vagou pela cidade sem rumo até estar completamente perdida.

— Anelise, aqui. Sorte que eu te achei — Ronaldo parou o carro e abriu a porta, se dirigindo para onde sua paciente estava — O Rubens me ligou contando o jeito que você deixou o consultório dele e o motivo disso.

Ela foi na direção dele, mas se recusou a abraçá-lo. Contatos físicos não eram sua maior preferência, ainda mais no estado em que se encontrava.

— Você precisa procurar sua mãe. Ela é a melhor pessoa para estar com você nesse momento.

Procurar a mãe. Há quanto tempo elas não se falavam mesmo? Há mais de cinco anos, quando Anelise completara seus dezoito anos e decidira sair de casa, da cidade e do estado. Sua vinda para São Paulo foi para fugir da mãe. Elas nunca se deram bem, ainda mais depois do que aconteceu com a irmã mais nova de Anelise, a filha querida e sem problemas da dona Raquel. Depois da primeira consulta com o oculista, os dias correram sem nada de diferente. Pesadelos, rotina, mais pesadelos, rotina nova – mente e assim por diante. Enfim, a consulta que selaria o temido diagnóstico chegou.

— Anelise, seu quadro é grave e eu preciso que a senhora me es – cute até o final e não saia correndo como fez da última vez. Posso contar com sua ajuda nisso? Ela olhou o melhor que conseguiu para seu interlocutor e meneou a cabeça concordando.

— Os resultados indicam que você tem um problema sério na vista e é bem provável que, com o tempo, ainda não sei dizer se muito ou pouco, você perca sua visão. Anelise não esboçou reação alguma. Ela se manteve o mais calma que pode e o mais tranquila que o calmante fortíssimo que tomou permitiu.

Cega. Vou ficar cega — ela apenas pensava nisso ao invés de ou – vir o que o doutor lhe dizia — a escuridão enfim vai conseguir me alcançar e eu pagarei minha conta — balbuciou.

— Oi, alguma dúvida senhora? Ela negou, balançando a cabeça.

A consulta acabou e ela foi embora. O mundo ruía dentro de Anelise enquanto esperava o ônibus. O que ela temia aconteceria. Seria entregue à escuridão. Não sabia o que fazer ou o que pensar. Depois da consulta, se sentia estranha. Percebeu que tudo ao seu redor também estava estranho.

Não entendia o que, mas algo estava errado e não era apenas por causa do diagnóstico. Algo não estava bem. Sentia isso, mesmo que não soubesse explicar. Alguma coisa não estava normal. Todas as pessoas que passavam pareciam agitadas olhando para cima. Olhou para o céu, viu que estava escuro. Esticou o braço e viu em seu relógio que ainda eram três e meia. Mas o céu escurecia rapidamente. Estava agitada e todos percebiam.

O ônibus chegou e ela entrou sem se preocupar em esbarrar nas pessoas que também entravam, fato inaceitável em um dia normal. Dentro do coletivo, ela olhava aflita para o céu tentando entender se o que acontecia era real ou era sua imaginação. Ela ficaria cega, mas não seria rápido assim. Não deveria ser tão rápido assim. — pensava aflita.

Estava muito mais escuro que o normal para o horário. Ela esfregava os olhos tentando tirar aquilo que a impedia de ver normalmente. Não podia ficar no escuro ou aquilo inominável a pegaria dessa vez.

—Tudo bem menina? Perguntou uma senhora atrás dela — Ei, tudo bem? O que está acontecendo? Você está pálida.

Anelise ficou horrorizada ao perceber que o sol estava incompleto. Uma bola de trevas estava tomando-o e em breve levaria o resto de sua visão e a deixaria na escuridão. Ela saiu correndo na direção da porta do ônibus que começava a se mover novamente depois de deixar alguns passageiros. Anelise nunca se interessou por televisão. Ela nem sequer tinha uma. Se tivesse, saberia o que estava acontecendo naquele dia. Todos os canais comentavam o eclipse total do sol que aconteceria naquele dia, às 15h30. Desceu e saiu correndo. A luz do sol não passava de um simples anel. A lua o obliterava. Mas, Anelise não via a situação assim. Para ela, era o derradeiro acerto de contas. O motivo pelo qual ela sempre temia o escuro estava prestes a encontrá-la.

Vem aqui. Não adianta correr. Eu vou te pegar.

— Sai! — gritava ela entrando em ruas desconhecidas.

Ele me pegou por sua causa.

Eu morri porque você me deixou sozinha no escuro. Agora ele também vai te pegar.

Enfim estaremos juntas.

— Não foi minha culpa. Nunca quis que você morresse — Anelise estava desesperada. O sol deu lugar à escuridão. Os pelos da nuca dela se arrepiavam cada vez que ouvia a voz da irmã morta. Não adianta correr. A luz não vai mais te proteger. Nos uniremos nas trevas.

— Não foi minha culpa. Eu não podia ter feito nada!

Mentira! Olhe para mim, veja o que ele fez comigo antes de me matar.

Anelise não queria, mas era impossível resistir. Olhou para trás e não viu nada além da escuridão. Olhando para frente, horrorizou- -se. Entendeu que seu destino tinha chegado ao fim.

Horas depois, as pessoas voltavam para casa depois do dia atípico, brindado por um eclipse total do sol de mais de sete minutos. Só na manhã seguinte o corpo de Anelise foi encontrado caído naquele beco escuro. A perícia não entendia como aquela cena acontecera. A jovem aparentemente tentou se estrangular com as próprias mãos, entretanto a causa da morte foi um infarto que rasgou o coração dela ao meio. Mas, o que nunca mais saiu da memória de cada um dos policiais que atenderam aquela ocorrência foi a cara de pavor que aquela menina tinha. Muitos, inclusive, disseram que ela morreu de medo.

Dias depois, o jornal da cidade onde Anelise vivera sua infância trazia uma pequena nota falando sobre a morte, em circunstâncias incomuns, da filha mais velha da proeminente senhora Raquel de Figueiredo. A nota trazia os pesares do editor pela perda da querida amiga que já havia perdido outra filha para a violência, vítima de um estupro

Por: Renato Dutra

Conto inspirado na música “Fear of the dark da banda Iron Maiden.


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  1. Maravilhoso amei

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