Era melhor fazer home office


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Sara acordou naquele dia como se fosse qualquer um dos dias com os quais estava habituada.

O clima estava estranho, mais ardido do que ela estava acostumada mas por ser o auge do verão, acabou não estranhando. Levantou de um pulo, já estava atrasada.

Enfiou um pão na boca e o cuspiu quase imediatamente: a manteiga estava com gosto estranho, provavelmente rançosa.

Não tem problema ela compraria alguma coisa para comer pelo aplicativo.

Foi até o quarto e na semi-escuridão, deu um beijo no marido que falou alguma palavra incompreensível.

– Coitado deve estar cansado. Tem trabalhado todas as noites. – disse consigo mesma.

Correu para fora de casa se vestindo ainda, entrou no seu carro, engatou a primeira e saiu pelas ruas vazias, anormalmente vazias.

A luminosidade difusa do dia que estava nascendo, mostrou um céu cor de rosa claro e Sara não se atentou a isso.

Estacionou na rua, bem na entrada do escritório e se surpreendeu com o lugar vazio.

– Não acredito, só eu cheguei no horário? Esse povo tá de brincadeira! – reclamou

Indignada, a mulher foi até seu posto de trabalho e ligou o computador com apenas um toque, usando um sistema biométrico. Imediatamente ela notou algo errado, a linguagem era totalmente estranha algo que ela nunca viu.

Pop-ups abriram sem parar, mostrando cenas que lhe pareciam incompreensíveis. Pessoas comendo coisas que se torciam, andando em veículos de apenas uma roda e morando em lugares que lhe eram totalmente bizarras.

Sara mexeu no computador estranhando tudo aquilo, procurou nas configurações a linguagem do seu país e finalmente a encontrou.

Ainda assim, quando leu o primeiro pop-up algo continuava errado, pois ele dizia: “venha viajar com todo seu núcleo familiar pelo fluido-continuo. Aproveite a oportunidade da sua média existência”.

Na imagem havia um homem uma mulher e duas crianças de ponta cabeça flutuando em algo que parecia uma galáxia. Isso era estranho e inconcebível para ela.

Sara ia clicar no anúncio quando a porta se abriu e uma dezena de pessoas entraram falando uma língua que a lembrou os povos do Oriente Médio.

Um tanto contrariada ainda, se voltou para os colegas de trabalho e disse:

– Ah, vocês acham legal, me fazer chegar meia hora antes?

Quando olhou para eles não conseguiu reprimir um pequeno grito de horror. Eram seus amigos e seu chefe, porém dependendo de como a luz batia em seus rostos e pele expostos, Sara conseguia ver o sistema nervoso. Quando irradiados pela energia de seus pensamentos, se iluminavam e os filamentos eram percorridos por pequenas ondas de luz.

Aquelas coisas que se passavam por seus amigos pareciam tão surpresos como ela. Com suas vozes estalantes, começaram a se aproximar cautelosamente.

Sara deu um grito e pulou da cadeira, deu a volta por trás deles, correndo para saída do escritório.

Abriu a porta do seu carro e só então percebeu algo que em sua pressa e desatenção, não havia percebido antes: o interior desse veículo era muito diferente.

O volante era partido ao meio e os comandos todos escritos naqueles símbolos estranhos. Ela não havia notado que o carro tinha sete marchas e isso fez imaginar qual velocidade ele poderia alcançar.

Seus amigos saíram à porta e sobre a luz do sol em um céu rosado seus corpos brilhavam de maneira assustadora

Para sorte de Sara a ré ainda estava no mesmo lugar e ela pisou com muita força acelerando para trás.

As coisas que pareciam os seus amigos estenderam as mãos parecendo assustados com sua fuga. Ela só parou quando bateu em um poste e sua cabeça foi atirada violentamente contra o volante.

Tudo ficou escuro e ela não sabe precisar quanto tempo ficou desacordada. Quando recobrou a consciência e sentiu as mãos estava sendo retirada do carro e começou a gritar, até ouvir a voz do seu Alfredo, o porteiro:

– Calma dona Sara, a senhora está bem?

Um pouco tonta ela olhou para os amigos cuja pele agora escondia o que havia por dentro dos seus corpos. Betinho do almoxarifado, Renê, seu grande amigo confidente e seu chefe Agenor a olhavam com um certo espanto.

– Quer que liguemos para o seu marido? Você chegou… Estranha hoje! Parecia até… Brilhar.

Sara ainda estava trêmula, olhou para o céu azul claro e o calor da manhã não tinha aquela ardência estranha na sua pele.

 Aceitou ser levada pelos amigos e sentou na frente do seu computador.

Logo vieram com copo de água com açúcar e a mulher se acalmou um pouco.

Enquanto os amigos foram até a rua avaliar o estrago no carro e ligar para uma seguradora, Sara apertou o botão para inicializar seu computador, mas percebeu que o mesmo já estava ligado.

Viu que alguém mudou a configuração para alguma língua só existente no Oriente Médio.

Ela se lembrou que esse computador só funcionava com sensor biométrico.

Apenas Sara poderia liga-lo.

Deixou cair o copo com a água adocicada no chão, colocou as mãos no rosto e começou a gritar.

A um universo de distância, outra Sara gritava também.

Humberto Lima é professor, escritor e colunista do Literanima.


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