Entrevista Literária – Daniel Sousa


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  • Daniel, para nós é um prazer entrevista-lo. Conte-nos um pouco sobre você e sua carreira no mundo dos quadrinhos. 

Obrigado pela oportunidade!
Como a maioria dos artistas que trabalham com quadrinhos, tive contato com gibis muito cedo. Passei a acompanhar publicações da Abril (Marvel/DC) lá pelos 7 anos, e com o tempo a vontade de passar para o lado de quem cria foi aumentando.
Acabei indo para outra área, engenharia da computação, e posteriormente design gráfico, mas a ilustração sempre se manteve como lazer.
Depois de algumas tentativas, em 2017 me senti pronto para publicar minha primeira HQ, Entrespaço. Baseada em um conto que escrevi em 2009, decidi adaptá-la para os quadrinhos. O retorno que tive pelas previews em redes sociais me encorajou a arriscar uma campanha de financiamento coletivo, e a publicação aconteceu. Enquanto preparava a campanha, recebi a confirmação de que havia sido selecionado para participar do Artists’ Alley do 10○ FIQ, e o lançamento aconteceu no evento, o que provavelmente foi a experiência mais bacana que eu já tive, em termos de realização profissional.
Com o sucesso de Entrespaço, me juntei ao amigo de longa data Felipe Tazzo, para criar a HQ O Bar do Pântano. Os roteiros do Tazzo são afiados, e casaram perfeitamente com a minha proposta de arte que estava desenvolvendo. A HQ também foi financiada com sucesso pelo Catarse, e lançada durante a CCXP18, onde também participei do Artists’ Alley do evento.

  • Qual o seu estilo de desenho e o que mais gosta de desenhar?

Eu sempre admirei inúmeros artistas, mas foi quando conheci trabalhos como os de Dave McKean, Mike Mignola e Bill Sienkiewicz, que tem uma carga pesada de estilização não-convencional, que percebi que esse era o caminho que gostaria de seguir. Meu traço não reflete o estilo destes artistas, mas foi quando percebi que você pode trabalhar em um estilo fora do padrão de super herois. Hoje me inspiro muito também em artistas como Jeff Lemire, Ben Templesmith, Jock e Mitch Gerads quando busco inspiração. É lógico que não alcanço 10% do que esses caras conseguem fazer, e nem pretendo emular um estilo ou outro, mas são artistas essenciais para estimular a minha criatividade.
Outra coisa que sempre me atraiu foram as possibilidades de manipulação digital – culpa mais uma vez do McKean.
Isso também reflete no estilo de histórias que gosto de trabalhar. São HQ’s com uma pegada mais sombria, não necessariamente dark, mas definitivamente longe do padrão de super-heróis. Eu continuo lendo HQ’s de todos os estilos – supers inclusos, mas tenho mais afinidade para contar histórias mais sombrias e introspectivas.
Nos últimos anos tenho me dedicado a trabalhar mais no digital, que hoje permite uma proximidade incrível com o processo tradiconal de papel e tinta. Mantenho a minha produção em nanquim para comissions e estudos, mas pela agilidade (eu sou incrivelmente lerdo para produzir), minhas hqs são feitas exclusivamente no digital.

  • Atualmente tem quantos trabalhos publicados? Fale um pouco mais sobre eles. 

Como mencionei antes, tenho 2 HQ’s publicadas.
Entrespaço é um quadrinho que se passa na Lua, e apesar de ter uma pegada sci-fi tem uma carga emocional muito grande. O roteiro é uma grande metáfora para decisões que tomei em minha vida, e gosto de pensar que é o meu manifesto em forma de HQ’s.

O Bar do Pântano (E outras desgraças) é uma HQ de humor negro e terror, e tem os roteiros do Felipe Tazzo. O universo dessa hq é uma grande caixa de areia que criamos para poder trabalhar qualquer tipo de ideia esdrúxula e gore, e para isso o Tazzo se inspirou no inferno descrito por Dante em sua Divina Comédia para criar algumas regras e conceitos básicos, e partirmos a partir daí. Essa publicação apresenta duas histórias fechadas e isoladas ambientadas no inferno habitado por criaturas sacanas e por almas perdidas buscando redenção (ou apenas um bom copo de cerveja gelada). A ideia é termos mais volumes que compartilhem desse universo básico, e não pretendemos nos prender apenas aos quadrinhos. Webcomics, podcasts, animações, tudo isso está nos planos, e algumas delas já estão em andamento. No final das contas, é tudo em nome da diversão.

Em 2019 estou com muita coisa em andamento, todas elas programadas para a CCXP19, onde estarei mas uma vez no Artist’s Alley. São elas duas participações em coletâneas de terror:

Histórias para Não Dormir, onde ilustro um roteiro do Eric Peleias. A coletânea tem como foco a obra do escritor H. P. Lovecraft, e todas as histórias se inspiram no seu mythos de maneira única e individual.

Antologia VHS, onde ilustro um roteiro do quadrinista Victor Freundt, que considero uma pérola das HQ’s de terror no Brasil. A coletânea tem como objetivo homenagear a prolífica produção cinematográfica de terror dos anos 80, e conta com grandes nomes do quadrinho de terror nacional. O roteiro do Victor, particularmente, é uma das coisas mais insanas, doentes e perturbadoras que eu já desenhei, e sinceramente,acho que vou precisar de um guarda-costas depois que a HQ for lançada 🙂

Além destas duas coletâneas, tenho 2 hqs solo.

Tachyon é uma HQ semi-biográfica que pode ou não conter elementos de verdade, que escrevo e ilustro. Nessa revista eu brinco com alguns acontecimentos peculiares de minha vida, e construo uma narrativa de maneira trágica e cômica. Dizem as más línguas que eu não faço ideia para onde estou indo com a HQ, e eu não nego nem confirmo essa afirmação.

Scorpio, que também escrevo e ilustro, é uma HQ com uma pegada forte no sci-fi mas que, assim como Entrespaço, tem uma mensagem introspectiva muito forte, principalmente na questão do fracasso e no quanto somos condicionados a agir de determinada maneira, e como isso pode impactar em nosso futuro. Mas claro, sem abrir mão da narrativa e de contar uma história interessante, que funciona independente de você capturar a mensagem ou não.

  • Quem, ou o que te motivou a desenhar ?

Sempre gostei de boas histórias, fossem elas na literatura, quadrinhos ou filmes. Poder também contar minhas próprias histórias foi o que motivou a desenhar, pois sou uma pessoa gráfica, se é que o termo exista (e se não existe, o termo é meu – royalties, please), o que significa que sempre senti a necessidade de um apoio visual para poder me expressar. Com o passar do tempo fui me treinando a desenvolver um estilo de escrita que independesse do visual, mas ainda considero os quadrinhos como a maneira mais completa e eficaz de se contar uma boa história. E agora que eu me empolguei, não pretendo mais parar.

  • Você vê alguma dificuldade em publicar um quadrinho no mercado literário brasileiro atualmente?

Sim e não. É preciso lembrar, antes de mais nada, que eu sou relativamente novo numa área que já é incrivelmente desenvolvida no Brasil, então não passei por muitos dos problemas e desafios que outros autores com mais estrada já passaram. Isto posto, hoje tudo o que você precisa fazer para publicar quadrinhos (ou livros. ou musica. ou filmes. você pegou a ideia) é sentar e fazer. O contato com artistas experientes através da internet é essencial para ter um retorno do seu trabalho, tirar duvidas e descobrir novos processos. Idem em relação ao publico leitor, que tem acesso muito mais fácil hoje ao que está acontecendo na outra ponta do país, ou do mundo. Em relação ao processo de publicação em si, o boom das plataformas de financiamento coletivo tornaram o processo bem mais economicamente viável, se formos comparar com esse mercado 10 anos atrás.

Talvez contraditoriamente, por outro lado é uma aventura solitária. Até que você consiga chamar a atenção de uma grande editora (não estou dizendo que essa seja a minha ambição, mas isso não muda o fato), você simplesmente não consegue sobreviver exclusivamente de quadrinhos, então ainda é uma atividade que você faz no seu tempo livre. Não importa se você tem um emprego ou se você trabalha como autônomo (como é o meu caso), as contas continuam chegando e os bancos ainda não aceitam quadrinhos como pagamento 🙂 Mesmo assim, publicar quadrinhos de maneira independente é um esforço apaixonado de criação, e muito gratificante!

  • Além de desenhar, gosta de escrever? E de ler? Quais são seus autores e gêneros favoritos?

Sim, gosto de escrever (como respondi anteriormente) e leio muito. Aprendi a ler muito cedo, aos 4 anos. Sempre estive cercado de literatura de fantasia e ficção, e na minha adolescência me apaixonei pelo trabalho de Isaac Asimov e Arthur C. Clarke, nas visitas aos sebos com meu pai. O primeiro filme que vi no cinema foi E.T. (alert: velho detected), e também me recordo de ter assistido, não necessariamente nessa ordem, Star Trek IV (o das baleias) e Caravana da Coragem (malditos Ewoks). Então sci-fi sempre esteve presente em minha vida. Um exercício bacana que assumi para me forçar a ler foi tentar cobrir toda a lista dos vencedores do prêmio Nebula. Foi uma boa maneira de descobrir autores que eu não conhecia, e assim fui aumentando o alcance, buscando mais obras dos mesmos autores. Puxando para o lado do terror, fui apresentado ao estilo com Stephen King e Clive Barker. Hoje em dia não leio tanto terror quanto leio ficção científica ou especulativa. O ritmo da produção das hqs desde 2017 acaba ocupando o meu tempo, mas tento encaixar um tempo para ler algo. Os últimos bons livros que li foram a trilogia do Jeff VanDer Meer e Normal, do Warren Ellis.

  • Para encerrar. Deixe um conselho para os quadrinistas e desenhistas que estão chegando agora nesse meio.
 Venda sua alma.

Mas se não der certo, faça como nós, pobres mortais. Se a sua meta é escrever, escreva bastante. Sobre qualquer coisa, e se force a dar o seu melhor, e no dia seguinte tente ser melhor que no dia anterior. O mesmo para o desenho. Desenhe qualquer coisa que vir pela frente. Em ambos os casos, geralmente não adianta ser ambicioso e querer escrever o seu primeiro grande livro de 600 páginas, ou desenhar sua incrível HQ de 180 páginas. Comece pequeno, e vá se superando a cada dia.
E o principal, não tenha medo de errar. Mostre sua produção para quem estiver disposto a dar um retorno honesto, e JAMAIS suba no salto. A melhor parte é receber as críticas, porque nem eu nem você nascemos sabendo, então você vai errar MUITO. E isso é bom.
E busque inspiração. Você não vai desenvolver seu estilo do nada. Especificamente em relação a desenhos, não tem problema algum em sentar e copiar um quadro, desde que seja para compreender qual foi a solução que o artista encontrou para determinada situação. Mas use isso como estudo, e não para ser um clone do Frank Miller! Seu estilo vai aflorar em determinado momento.


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Mhorgana Alessandra
Mhorgana Alessandra é mineira, psicóloga e mestranda em Literatura. Diretora da Anima - Núcleo de Desenvolvimento Humano, ministra palestras e consultorias sobre diversos temas do comportamento humano. Casada, mãe de duas lindas meninas, é amante do heavy metal, literatura, artes marciais e atividades ligadas ao crescimento espiritual. Ganhou diversos concursos literários e vem participando como autora e organizadora de diversas Antologias. Escritora, blogueira, colunista e roteirista, transita por diferentes estilos, mas tem especial fascínio pelos gêneros de ficção, suspense, terror e horror. Seu autor preferido é Stephen King e como ele, acredita que o escritor presta atenção em como as pessoas reais se comportam e então, conta a verdade sobre o que vê, através de caminhos alternativos e acrobáticos. Idealizadora e Editora do Literanima, é também associada da ABERST e Editora da A Arte do Terror e vem desenvolvendo projetos voltados a esse mercado específico.

Um comentário

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  1. Debora Gimenes disse:

    Gente ! Aprendeu a ler com 4 anos? Que prodígio. Adorei a entrevista.

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