Entrevista Literária – Andrea Nunes


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Andrea, para nós é um prazer entrevistá-la. Conte-nos um pouco sobre você e sua carreira literária.

A promotora e a escritora são personagens distintas, mas originárias de uma única menininha que era filha de professores universitários. A mãe da menininha era artista e tinha parentesco com o poeta Augusto dos Anjos. O pai da menininha tinha ficha no Dops e fora preso na ditadura militar. O lar da menininha vivia abarrotado da poesia maldita e dos livros proscritos. Essa história de vida incomum possibilitou herdar, no espírito, o traço mais marcante da sua criação: um respeito reverente pela palavra e pela liberdade de expressão. E essa era uma herança tão preciosa para dar conta que a menininha precisou bifurcar em duas. Então, ela se transformou numa escritora para levar ao mundo a narrativa que traduz a vida com as lentes do encantamento. E a promotora tenta mudar o mundo para torná-lo mais justo e digno como seu pai um dia ensinou que deveria ser. Essas duas personagens lutam em campos distintos, mas com a mesma arma: a palavra. E assim se influenciam mutuamente, todos os dias.

Qual o seu estilo literário e o que gosta de escrever?

Me identifico muito com o subgênero criado por Umberto Eco, em “O Nome da Rosa”, o suspense erudito. Através dele, é permitido, dentro de uma obra de suspense, desenvolver provocações filosóficas, inserir referências sobre nossa cultura e gestar tensões paralelas à trama principal. Adaptado à realidade brasileira, significa que posso explorar nossa cultura,  trabalhar com a realidade contemporânea e suas implicações filosóficas e políticas na efervescência dos acontecimentos do país.

Como começou a escrever e o que te motivou a criar suas histórias?

José Américo de Almeida- que também era, como eu, paraibano e Promotor de Justiça- no prefácio da sua obra “A Bagaceira”, disse que “há muitas formas de se dizer a verdade, e talvez uma das mais persuasivas seja contando uma mentira. ” Acho essa frase perfeita para responder essa pergunta sobre minha motivação para escrever, uma vez que ela nos diz o seguinte: a ficção pode ser o melhor modo para passarmos a nossa mensagem às pessoas. A linguagem técnica não seduz ninguém. A literatura intriga, inspira e diverte. Portanto, como Promotora de justiça tentei arrebanhar plateias para passar determinadas mensagens que achava importante, mas não tinha público para isso. Já como escritora, rodei muitos lugares no mundo. Já fui a Paris, Berlim, Copenhague, Lisboa, Óbidos, Évora, Porto, e várias cidades do Brasil também dar palestras sobre o conteúdo de minhas obras, onde inseri exatamente essas questões que eu queria falar.

Atualmente tem quantos livros publicados? Fale um pouco mais sobre eles. 

Em 1991 recebi o troféu Parahyba de Imprensa pelo livro infantil O Diamante Cor de Rosa , gênero infantil, publicado pela gráfica Santa Marta,   e em 1992, o mesmo livro arrebatou o troféu Baile dos Artistas (melhor texto literário adaptado ao teatro). Publicou os romances policiais o Código Numerati em 2010, que alcançou o primeiro lugar entre os livros de ação e aventura, e romances de espionagem, na plataforma digital Amazon, tendo se mantido até hoje nessa categoria entre os primeiros lugares.

 Meu segundo romance, A Corte Infiltrada, foi publicado em 2014 e reeditado em 2017

pela Buzz Editora. A Corte Infiltrada também conta com elogios dos escritores consagrados como Mary del Priore, Raimundo Carrero, Marco Túlio Costa e José Paulo Cavalcanti Filho.

Em 2014, recebi menção honrosa no prêmio Dulce Chacon da Academia Pernambucana de Letras- melhor escritora nordestina. Ainda fui indicada  pelo colunista e escritor Raphael Montes como um dos sete novos autores brasileiros para ler e se divertir, na sua coluna no jornal O Globo do dia 17.07.2017. Em 2017, contribuí com a coluna Realidade Alternativa da revista Superinteressante com o conto policial “Querido obituário”, que acabou sendo selecionado para a obra “Realidade Alternativa”, onde a revista selecionou 24 dos textos publicados ao longo dos anos na coluna para uma coletânea publicada em 2018, com textos também de autores  como Luiz Ruffato, Carola Saavedra e Ana Paula Maia. Dentre as antologias , merece destaque também a obra “Presentes Perigosos”, 2018, da Constelação editorial, onde fui uma das autoras convidadas pelos organizadores.

Em 2019, lancei pela editora CEPE, simultaneamente em Portugal e no Brasil, o romance de espionagem Jogo de Cena, que tem a seguinte sinopse: “

A morte de um boticário francês na fictícia cidade pernambucana de Mangueirinhas desencadeia uma sucessão de outros crimes aparentemente provocados por assombrações do folclore nordestino, levando a pacata população local a um estado de histeria coletiva. Para solucionar  tais crimes, a jovem delegada da cidade precisa superar as desavenças que cultiva com o filho de seu padrasto, um famoso historiador que regressou à cidade, mas renega o parentesco e as origens. Em busca de pistas acerca dos crimes e de um livro secreto deixado pelo boticário, eles percorrem desde os sebos do Recife Antigo aos sofisticados ambientes de Paris, destacando-se nessa narrativa as passagens narradas dentro da Catedral de Notre Dame, com direito a revelações de segredos históricos  ocultos em sua ornamentação. Entretanto, as mortes também parecem ter conexões com estudos de alquimia, computação avançada e contrabando de minérios brasileiros.  Além disso,  eles estão sob a mira da mais poderosa sociedade secreta do mundo, que parece tentar impedir a todo custo que a verdade venha à tona.Num romance policial eletrizante, Andrea Nunes utiliza informações verídicas sobre o mais ousado projeto científico da humanidade, numa obra recheada de estratégias de espionagem e contraespionagem, curiosidades da cultura nordestina e dos bastidores da inteligência militar, além  de muita ação, suspense e reviravoltas , arrematando, como sempre, com um final desconcertante para o leitor.”

Você vê alguma dificuldade em publicar um livro no mercado literário brasileiro atualmente?

O mercado literário atual padece, sem dúvida, com o súbito corte orçamentário para programações culturais, cancelamento de concursos literários e outras medidas restritivas . Por outro lado, a premiação de escritores brasileiros em importantes concursos literários internacionais como o prêmio Camões e o prêmio Leya renovou o interesse internacional pela literatura brasileira. Ainda se deve destacar que o funil das grandes editoras não alargou, mas as plataformas digitais de publicação e as campanhas de financiamento coletivo impulsionadas pelas redes sociais democratizaram os meios de acesso dos novos escritores ao seu público , tirando-os do limbo da invisibilidade editorial.

Além de escrever, gosta de ler? Quais são seus autores e gêneros favoritos?

Gosto de ler muitos gêneros, mas é claro que tenho uma predileção pelo gênero policial. Entre os contemporâneos destaco que tenho lido um autor francês novo, Henri Lœvenbruck, que também gosta de trabalhar o suspense erudito nas suas obras. No Brasil temos Cláudia Lemes, Vivianne Geber, Raphael Montes, e ainda saindo um pouco do gênero policial, destaco Maria Valéria Rezende e Raimundo Carrero.

Para encerrar. Deixe um conselho para os escritores que estão vindo agora. 

Eu diria primeiro para não ter pressa em publicar. Parece clichê dizer às pessoas que leiam muito antes de escrever, mas sem vocabulário e fluência você nem sequer consegue imitar alguém, muito menos criar seu estilo. Oficinas literárias também são importantes: até mesmo a  imaginação de um gênio da Literatura, sem uma noção das técnicas, é como  um cavalo puro-sangue sem rédeas e sem cavaleiro . Ter um livro escrito é algo fantástico, você quer logo dividir essa experiência com os outros, mas o aprendizado da técnica e uma revisão detalhada elevam a qualidade dos produtos. Até hoje sinto que escrevo com o entusiasmo de uma menina, mas o que basicamente mudou foi o pós-escrita. Não tenho mais receio de mexer profundamente no que escrevo, se isso tornar a trama melhor.


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Mhorgana Alessandra
Mhorgana Alessandra é mineira, psicóloga e mestranda em Literatura. Diretora da Anima - Núcleo de Desenvolvimento Humano, ministra palestras e consultorias sobre diversos temas do comportamento humano. Casada, mãe de duas lindas meninas, é amante da música, literatura, artes marciais e atividades ligadas ao crescimento espiritual. Ganhou diversos concursos literários e vem participando como autora e organizadora de diversas Antologias. Escritora, blogueira, colunista e roteirista, transita por diferentes estilos, mas tem especial fascínio pelos gêneros de ficção, suspense, terror e horror. Seu autor preferido é Stephen King e como ele, acredita que o escritor presta atenção em como as pessoas reais se comportam e então, conta a verdade sobre o que vê, através de caminhos alternativos e acrobáticos. É membro da ABERST e da A Arte do Terror e vem desenvolvendo projetos voltados a esse mercado específico.

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