Então é Natal


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Ideia Original — Marcelo Pirani

Adaptação — Pedro Cindio

O casal se mudou para o prédio no final de Outubro.  No hall do prédio, apenas três portas por andar. Um elevador, tapetes ao chão e um vaso com flores artificiais. Os apartamentos 11 e 13 já estavam ocupados, e o casal alugara o 12 que tinha sua porta encostada com a de dona Marcelina. 

Dona Marcelina era uma carola que sabia de tudo que acontecia no prédio e na vizinhança.Ninguém sabia como dona Marcelina viva, mas ela sabia da vida de todos… 

Após a mudança, dona Marcelina ficou de olho no casal. Era um casal jovem, de pouca idade e pareciam recém casados. Claro que dona Marcelina quis saber de tudo sobre o casal. Ela então ficou vendo sua rotina durante uma semana.  Na noite de sexta-feira, vasculhou o lixo deles. “Que absurdo”, pensou ao encontrar um pacote de lubrificantes e uma embalagem de vibrador. 

Na semana seguinte, dona Marcelina foi ao corredor para ter um encontro casual com o casal. Primeiramente a moça. 

– Olá, bom dia, vi que são novos no prédio,qual seu nome? 

– Sou Marcela, e o da senhora? 

– Marcelina. Que nome belo, temos um nome bem parecido.

– Sim, prazer em conhecer a senhora. 

– O prazer é meu, filha. 

– A senhora me desculpe mas preciso entrar, tenho ainda trabalho para fazer. 

– Sem problemas.Tenha um ótimo trabalho. 

Marcela entrou em seu apartamento. Dona Marcelina reparou que Marcela não usava aliança. “Mas a aliança é a mostra do compromisso, selada pelo padre”, pensou consigo mesma. 

Mais tarde, Dona Marcelina viu o movimento do marido de Marcela e saiu para colocar o lixo para fora. 

– Olá, o senhor se mudou há pouco aqui pro prédio,não foi? 

– Isso, sou o Pedro. E a senhora? 

– Marcelina. 

– Muito prazer dona Marcelina, aceita um chocolate? Pedro estendeu um chocolate para Marcelina, que recusou. “Nessa idade não podemos comer muito doce”, respondeu educadamente dona Marcelina. 

– Desculpe-me dona Marcelina. 

– Sem problemas filho. Vocês são casados? 

– Sim, mudei com minha esposa, estávamos em um outro apartamento mas precisamos gastar menos com aluguel. E este prédio tem fama de ter boas vizinhas. O cortejo foi recebido com satisfação por Dona Marcelina. 

– Isso você está certo filho. 

– Tenha uma ótima noite dona Marcelina, peço licença mas tenho que entrar. 

– Claro filho, boa noite. 

Marcelina percebeu que Pedro também não usava aliança. “Que estranho, um casal sem aliança, como vão saber que são casados? O que vão pensar deles?”. Dona Marcelina era muito preocupada com o pensamento das pessoas… 

Durante a semana, encontros casuais e algumas perguntas inocentes para saber mais sobre o casal. “Que legal, sua mãe mora no interior”. “Meu filho também estudou nessa faculdade”. “Eu adoro esse macarrão também”.  Dona Marcelina começava saber bastante sobre o casal recém chegado aquele prédio. 

Chegou então o mês de dezembro. 

O prédio estava sendo iluminado com luzes, as janelas tinham pisca-pisca enquanto as portas estavam com guirlandas e bonecos de papai noel. Dona Marcelina encontra o casal chegando do mercado. 

– Quantas compras, é pra janta? 

– Sim, iremos receber uns amigos hoje. 

– Como é bom a juventude, quando a gente fica velho não existe mais isso, aproveitem

– Obrigado, respondeu Pedro e Marcela rindo com dona Marcelina. 

– Deixe perguntar uma coisa, qual igreja vocês casaram? 

– Nós não somos casados na igreja, nós decidimos morar juntos. 

– Mas isso não pode. 

– Nós preferimos assim. A senhora no dê licença, precisamos preparar nossa comida. Tenha um grande dia. 

Dona Marcelina fica estática. “como podem viver em pecado desta maneira?” pensava consigo. “Duas almas pecadoras aqui neste prédio tãobem frequentado. Não pode, não pode. Vou falar com o zelador”… 

Depois deste episódio, dona Marcelina fazia questão de não encontrar aquele jovem casal. Quando Pedro, certo dia acenou para ela, teve como resposta uma cara fechada e a porta batendo. O casal achou estranho, mas não iriam se preocupar com dona Marcelina achando de seu casamento. 

Dona Marcelina entrou em choque ao sair para caminhar. Na porta do casal, havia uma guirlanda e uma pequena faixa de “Feliz Natal”. “Como podem ainda zombar de nós, verdadeiros escolhidos de cristo, com os enfeites de natal mas vivendo em pecado”… Dona Marcelina se incomodava muito com o casal vivendo em pecado aos olhos de Deus. 

No dia 20 de dezembro, Dona Marcelina interpelou Pedro no corredor. 

– Moço, vocês vão passar o natal aqui? 

– Vamos sim Dona Marcelina, e a senhora, passa aqui com familiares? 

– Não, certamente vou precisar fazer um trabalho. Deus me enviou uma missão que…

Pedro interrompe dona Marcelina 

– Que bom, dona Marcelina, mas agora preciso ir. Foi um prazer vê-la. 

Dona Marcelina se irrita em não poder falar o que queria com Pedro. “Deus está certo, esta é a minha missão”. 

Dia 24 de dezembro. Dona Marcelina toca a campainha de Marcela e Pedro. Pedro Atende a porta e encontra aquela adorável senhora com um bolo nas mãos. 

– Olha, queria entregar esse bolo a vocês. Em nome de Jesus, deste natal tão belo que possamos ter. 

– Quanta gentileza dona Marcelina, entre que a Marcela está terminando o banho, vou passar um café e a gente come o bolo juntos, pode ser? 

– Claro. 

Ao virar as costas, dona Marcelina pega a faca do bolo e crava em sua nuca. Pedro não teve como reagir. Caiu estatelado ao chão, formando uma enorme poça de sangue. Marcela, dentro do quarto, não percebia o que estava acontecendo. Ao sair, dona Marcelina acerta um vaso em sua cabeça, fazendo-a cair tonta, mas ainda consciente. 

Foi aí que dona Marcelina sentou no peito de Marcela e, com a mesma faca que apunhalou Pedro, começou a furar Marcela. 

– Esta é em nome do pai – E fincou a faca na garganta de Marcela 

– Esta é em nome do filho – Cravando nos olhos a faca. 

– Essa é pelo espírito santo e pra aprenderem a não zombarem de Deus – Cravando a faca no peito de Marcela. 

– Obrigado meu Deus por mais um trabalho realizado com sucesso em seu nome. 

Dona Marcelina ainda ficou muito tempo dando facadas e orando em cima dos corpos ensanguentados ao chão. 

O crime chocou o bairro. Televisão, jornais, diversos policiais. Dona Marcelina via tudo de dentro de sua casa. Ninguém nunca descobriu quem matou aquele jovem casal que não era envolvido em nada de errado. O mundo às vezes é meio injusto mesmo. 

Um jovem casal desce do carro. Atrás deles, um caminhão de mudança. Eles abrem a porta do prédio para começar as mudanças. Notam uma simpática senhora na janela, que logo abre a porta do apartamento para dar as boas vindas. 

– Olá, estão de mudança então? Bem vindos ao prédio. 

– Obrigado senhora. Seremos vizinhos por alguns anos. 

– Que bom. Deixe fazer uma pergunta. Vocês são casados? 


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Um comentário

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  1. Ana Cristina disse:

    Adorei o elemento surpresa o início achei parecido com Duplex, mas ela me surpreendeu. Gostei do conto parabéns

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