A sombra negra e o gaúcho valente (Argentina)


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Este é um conto da Argentina, daqueles de tradição oral. Nesta lenda, um homem que saiu em busca de riquezas enfrenta uma tremenda aventura. Boa leitura!

Contam os que contam e dizem que sabem que há muito, muito tempo um homem decidiu sair pelo mundo em busca de fortuna, acompanhado apenas de sua mula preta.

Ainda não havia andado muito, quando se encontrou com um gaúcho que também montava uma mula.

– Aonde vais, compadre? – perguntou-lhe o desconhecido.

– Pra falar verdade, nem eu mesmo sei. Ando sem destino. Que prazer encontrar alguém neste descampado! Meu nome é Miguel.

– O prazer é meu. Meu nome é Elói, seu criado. Veja como são as coisas, eu também estou sem destino.

Anda que te anda, fala que te fala, logo travaram amizade. Juntos cruzaram campos, pastos, matas e acudes. Foram dias e noites sem que aparecesse vivalma.

Uma tarde, quando já começavam a se desesperar diante tanta solidão, divisaram ao longe uma casa muito grande. Apertaram o passo, um pouco por curiosidade, mas sobretudo por fome, uma vez que as poucas provisões que levavam já haviam esgotado.

Ao chegarem, ficaram boquiabertos. Tinham diante de si um esplêndido palácio rodeado de jardins. Nunca haviam visto nada semelhante. Então se entusiasmaram e bateram palmas dizendo:

– Louva seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

Ninguém respondeu.

Bateram várias vezes na porta e nada. Tudo era silêncio. Por via das dúvidas, empurraram a porta e ela se abriu. Então decidiram entrar, não sem um pouco de medo, é claro.

Tudo aquilo era muito estranho. Uma casa tão linda e abandonada. Assim, sem mais nem menos. Ninguém respondeu aos repetidos chamados e, depois de percorrerem tudo, comprovaram que o palácio estava realmente desabitado.

– Estamos com sorte – disse Elói.- Vamos passar a noite aqui.

Em seguida, saíram para buscar o que comer e encontraram justo ao palácio uma granja onde havia todo tipo de aves, além de outras comidas.

Comeram até se fartarem e, quando estavam se preparando para dormir, apareceu sobre a mesa uma grande sombra negra, com aparente forma humana.

Dêem-me de comer! gritou ela, com voz tão imperativa e retumbante que deixou os dois amigos gelados.

Os dentes de Miguel batiam de medo, mas Elói logo se refez e respondeu:

– Se quiseres comer, vai cozinhar!

Mas a assombração não gostou nem um pouco da resposta e atacou-o violentamente, como se quisesse comê-lo. Elói conseguiu esquivar e, como um raio, sacou seu punhal. Enquanto isso, Miguel correu para se esconder no quarto. Elói lutava com grande destreza; e de vez em quando, cravava o punhal na assombração, mas sem nenhum resultado. Ela não se rendia. Como resposta a cada punhalada ouvia-se apenas um ruído seco. E assim foi até chegar a meia-noite, quando de súbito, com um movimento brusco, a assombração atingiu o braço direito de Elói, deixando-o paralisado. Depois desapareceu. Só então Miguel, branco de terror, saiu do seu esconderijo.

– Se ela voltar, tens de me ajudar – disse Elói, indignado com o amigo.

Miguel respondeu que o melhor era se afastarem daquele lugar. Elói, entretanto, insistiu em ficar.

No dia seguinte nada aconteceu. Mas com o cair da noite, novamente apareceu a sombra negra sobre a mesa pedindo comida com aquela voz espantosa.

– Se queres comer, vai cozinhar! – respondeu Elói mais uma vez.

E de novo travaram uma luta, enquanto Miguel se escondia debaixo da cama. Com o braço esquerdo, Elói dava punhalada atrás de punhalada na assombração. Mas era inútil, não conseguia vencê-la.

– Compadre, me ajuda! – gritava Elói a Miguel.

Mas o covarde não ousava nem mesmo a pôr o nariz fora do esconderijo.

Quando deu meia-noite, a assombração lançou-se contra Elói, paralisando-lhe o braço esquerdo e, em seguida, desapareceu.

Miguel suplicava que abandonassem o palácio, mas Elói estava disposto a vencer a assombração ou lutar até morrer.

Passou o dia seguinte inteirinho treinando para lutar a pontapés. Na hora de sempre, apareceu a sombra negra, que agora ameaçava devorar os dois, caso não lhe desse de comer. E desta vez, antes de desaparecer, paralisou a perna direita de Elói.

Na quarta noite, a luta foi atroz, dada a desigualdade de condições, e Elói acabou ficando completamente paralisado.

Quando a assombração se foi, Miguel se arrependeu de sua covardia e decidiu sair em busca de ajuda. Cavalgou durante três dias e três noites, sentindo que a sombra negra o perseguia:

– Espera por mim! Espera por mim! – parecia-lhe ouvir alguém gritar detrás dele.

– Tens a sorte de ter essa mula preta, mas mesmo assim, não me escaparás, não me escaparás!

Miguel não se deteve até chegar ao seu pago. Foi diretamente a igreja e narrou a sua aventura ao padre. Imediatamente, formou-se um grupo de vários gaúchos que, guiados por Miguel, saíram em direção ao palácio levando também o padre.

Lá chegando, esperaram que anoitecesse. Na hora de costume, surgiu sobre a mesa a sombra negra, de voz retumbante, dizendo:

– Dêem-me de comer!

Os gaúchos rodearam a assombração, sentindo um arrepio gelado percorrer-lhes as espinhas, e o padre aproximou-se dela. Os homens mal conseguiam respirar. Ele atirou água benta e a sombra negra se desfez. Uma densa coluna de fumaça branca começou, então, a se elevar. Disse o padre que era a alma penada que aparecia como sombra negra, que agora, finalmente, subia ao céu para repousar na graça de Deus.

E Elói, o gaúcho valente, voltou a se movimentar como antes.

Eu não vi tudo isso, mas dizem que é verdade.

Pedro Cíndio – é jornalista e colunista do Literanima.


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