Sob a Máscara do Terror


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S“Eu sou um escritor difícil Que a muita gente enquizila, Porém essa culpa é fácil pDe se acabar duma vez: É só tirar a cortina Que entra luz nesta escurez.”

Mário de Andrade

 Pode-se dizer que escrever é algo que resulta de algum grau de mal-estar psicológico pessoal, ou talvez, algum grau de neurose própria de quem escreve. Quase todos os escritores começam sua obra, sendo autobiográficos. Com a maturidade, adquirem o domínio da própria escrita e a habilidade em criar personagens autônomos. Talvez os escritores de terror, horror e suspense, sintam necessidade de colocar para fora aquilo que lhes atormenta. Porque não dizer, fazer uma catarse? Essa palavra tão difundida atualmente, que vem do grego, é um conceito filosófico que significa limpeza e purificação. 

A literatura é a arte das palavras e, transmite a sensação de purificação provocada pela catarse e é um equipamento de sobrevivência dos seres humanos. A produção do escritor é própria de quem tem intimidade com as palavras, de quem sabe usá-las de forma original e criativa. O processo da escrita é quase terapêutico e ajuda o escritor a descobrir quem ele é. A obra literária então, seria um misto do que vivenciamos, de nossas referências, e nos levaria à uma forma de autointerrogação. Talvez por isso, quando lemos algum texto literário que nos causa demasiada emoção e reflexão, podemos nos sentir tocados por um processo catártico.  A literatura catártica aparece de diferentes formas: em uma ficção, ela pode ser um personagem imaginário, um disfarce para o próprio narrador. Mas ela pode vir em uma autobiografia ou através de um depoimento pessoal, no interesse pela mente humana: em relatos de crimes ou assassinatos, ou no imaginário coletivo de lendas urbanas de monstros e demônios. 

Nos romances de terror, os monstros falam por si, e não são uma ameaça distante, sobrenatural, religiosa ou mística. Nessa medida, os monstros somos nós mesmos. Eles não nascem apenas, mas são criados pelo próprio escritor. Podemos inferir que Mary Shelley criou o personagem Dr. Jekyll saindo por trás da máscara do Sr. Hyde, por causa das repressivas condições sob as quais ele vive como um cavalheiro vitoriano. E porque não dizer, que os monstros ancestrais de Lovecraft são alienígenas não só porque vem do espaço sideral, mas também porque estão além da compreensão do que os humanos conhecem? 

Sendo assim, transpor para a literatura os nossos símbolos da vulnerabilidade ou das nossas fragilidades enquanto ser humano, seria a tradução do ato de escrever. A produção literária viria como uma forma de autointerrrogação, e ajudaria o escritor a lidar com os próprios medos, descobrindo quem ele é. Na verdade, a intenção é clara e vai além: construir um universo simbólico que irá tocar o leitor.

Sigmund Freud, o pai da psicanálise, publicou em Escritores Criativos e Devaneios, uma reflexão sobre o escritor criativo, citando que “ele faz o mesmo que a criança que brinca”. Ele cria um mundo de fantasia, no qual investe sua emoção, enquanto mantém uma separação nítida entre ele e a realidade. A irrealidade do mundo imaginativo do escritor tem, porém, consequências importantes para a técnica de sua arte, pois muita coisa que, se fosse real, não causaria prazer, pode proporcioná-lo como jogo de fantasia, e muitos excitamentos que em si são realmente penosos, podem tornar-se uma fonte de prazer para os ouvintes e espectadores na representação da obra de um escritor.

Os escritores utilizam temas preexistentes, lendas e medos milenares, que lhes permitem criar o próprio material. Nas criações desses escritores um aspecto fica sublinhado: elas possuem um monstro ou um centro do interesse do terror, para quem o autor procura de todas as maneiras possíveis dirigir a nossa atenção. Podemos então, reconhecer “Sua Majestade: o Ego”, o herói de todo devaneio e de todas as histórias. A inferência à monstros e demônios, é proveniente do tesouro popular dos mitos, lendas e contos de fadas. As construções da psicologia dos povos, os mitos, as lendas urbanas, são, portanto, egregoras catárticas populares e comuns em várias etnias. Esperava-se que as fantasias traduzidas pelos escritores nos fariam sentir repulsa, mas quando um escritor nos apresenta suas peças, ou nos relata o que julgamos ser seus próprios devaneios, sentimos um grande prazer, provavelmente originário da confluência de muitas fontes internas.

Após Freud, as histórias de monstros e demônios podem ser consideradas jornadas catárticas em direção ao nosso inconsciente. Todos temos então, um pouco do Sr. Hyde dentro de nós, e essas histórias nos permitem aproximação com o nosso primitivo, o mais escondido dentro da psique. Como o escritor do gênero consegue nos prender aos seus livros, constitui seu segredo mais íntimo, pois ele suaviza o caráter de seus devaneios por meio de seus personagens, e nos suborna com o prazer da leitura, que nos oferece na apresentação de suas fantasias. Sendo assim, a verdadeira satisfação que usufruímos de uma obra literária procede de uma libertação de tensões em nossas mentes. Talvez até grande parte desse efeito seja devida à possibilidade que o escritor nos oferece de nos deleitarmos com nossos próprios devaneios, sem autoacusações ou vergonha de gostarmos de ler sobre mortes, cadáveres ou páginas sangrentas. Isso nos leva ao limiar de novas e complexas investigações e autointerrogações e nos faz sentir plenos e satisfeitos, ao menos por uma página.

Mhorgana Alessandra é mineira, é psicóloga, blogueira e escritora. Diretora da Anima, ministra palestras e consultorias sobre diversos temas do comportamento humano. Casada, mãe de duas lindas meninas, participa como autora e organizadora em diversas antologias. É idealizadora do blog literário Literanima e membro da Associação Brasileira de Escritores de Romance Policial, Suspense e Terror (Aberst).

Publicado originalmente em:
http://www.euleiobrasil.com.br/ , todo dia um novo texto!


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Victoria Manuela

Victória Manuela nasceu na cidade mineira de Nova Lima no ano de 2005. Estudante e amante da literatura, teve a primeira participação em uma obra literária em 2017 nas Antologias Ana e Carpe Diem. Escreve contos e poesias e é leitura assídua de vários estilos literários. Sonha em ser uma escritora de sucesso e fazer faculdade de Letras. Seus hobbys são: ler, escrever e pintar.

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